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Ao Sr. autor do regulamento

Deolhonailha: 22/04/2013 - Postado por: Felipe Lenhart

Ao Sr. autor do regulamento

Eu, Felipe Lenhart, brasileiro, divorciado, gaúcho de 7 dias e manezinho de 33 anos, gremista desde pequeno e avaiano por empatia, migrante da Carvoeira e morador do Córrego Grande, comunicador social formado na Unisul e deformado pela UFSC, cronista diletante e jornalista profissional, ex-surfista de moribugue da Praia dos Ingleses, ex-jogador de futsal da Elase, ex-frequentador de Centro Social Urbano do Saco dos Limões e ex-passageiro de Cidade Universitária, declaro para todo e qualquer fim, legítimo ou inventado, frívolo ou grave, que no último sábado, dia 20 de abril de 2013, estando eu em uma festa de aniversário realizada nas dependências da associação de funcionários do banco que o senhor representa e do qual, suponho, tira o sustento seu e de sua família, associação esta localizada de frente para o mar de um dos muitos lindos balneários da paradisíaca Ilha de Santa Catarina, declaro, repito, que obedeci ao regulamento de sua autoria e, mesmo aproveitando a festa a poucos passos das ondas que quebravam logo ali, lá não fui nem me meti, visto que o portão de acesso à faixa de areia estava cadeado por conta de ordens expressas superiores que exigiam, sem discussão ou debate, sem conversa mansa ou jeitinho, o estrito respeito ao regulamento da associação.

Confesso também que, ao tomar conhecimento dessa restrição, eu não confeccionei cartaz de protesto, não reclamei meu direito de ir e vir nem improvisei coro de abaixo a ditadura, não pulei o portão nem a cerca, não tentei ludibriar nem o regulamento nem as intenções do senhor, mas procurei o marido da aniversariante, que, certamente, estaria informado a respeito e poderia dar uma explicação convincente para este enigma kafkiano: por que, num sábado de outono como o que fez no último dia 20, de céu azul sem nuvens, sol forte e lua branca brilhando sobre nossas cabeças às cinco da tarde, num sábado que se diria de verão se não fosse a inflexibilidade do calendário gregoriano a nos ditar que era abril, num sábado em que quem mora em Florianópolis saiu para a rua para aproveitar a cidade, nossas praias, nossas trilhas, nossos roteiros, nossos recantos, por que diabos, num sábado assim, "de cinema", o portão de acesso à praia da associação tem de permanecer fechado?

Ah, o senhor não imagina o constrangimento do marido da aniversariante! Ele pegou no meu ombro, como quem vai contar uma notícia triste, e me relatou o inusitado da situação.

Ainda cedo, antes do meio-dia, já estando ele a acender o fogo e salgar a carne, à espera dos convidados, ficou sabendo por outros - as churrasqueiras da associação estavam tomadas de gente alegre e entusiasmada com o dia! - que o portão de acesso à praia, ali, a alguns passos, estava trancado a cadeado. Ele então correu à portaria da associação, pois certamente algum sonolento funcionário teria se esquecido de liberar o tal acesso. Qual! Foi informado que não havia "esquecimento nenhum, não senhor": era a determinação do regulamento. Ora, o meu amigo, que é inteligente, viajado, escolado, um excelente papo e uma pessoa de boa índole, pediu motivos, razões, justificativas que embasassem a redação do regulamento. Então ouviu a frase definitiva: "O portão só fica aberto na temporada; agora, só reabre no fim do ano. Ponto final". E o meu amigo, ao terminar esse relato, fez uma careta e só conseguiu expressar assim o seu espanto: "Pois é".

Absorvido o impacto inicial da história, eu, primeiro, bati três vezes na madeira da mesa do churrasco por não ter me tornado, de alguma forma, funcionário do banco que o senhor representa - imagine que eu, bancário, decidisse tirar férias não em janeiro ou fevereiro, que é quando 200 milhões de pessoas vêm a Florianópolis, mas em abril, ou entre abril e maio, para aproveitar o outono e o veranico, e que eu desejasse passar um sábado de sol a pino nas dependências da minha associação assando peixe na brasa e então eu minha família e meus convidados não poderíamos acessar a praia senão dando uma volta de piada de português, pela rua, pelo asfalto, lá longe, tudo porque, "terminada a temporada", o portão recebe um cadeado que, em dezembro, será jogado fora, carcomido que estará não só pela maresia, mas também pelo óxido da burrice e da mesquinhez do regulamento que o Sr. redigiu - regulamento que impede que o portão instalado para dar acesso à praia dê de fato acesso à praia.

Em resumo, Sr. autor do regulamento, ninguém tomou banho de mar no último sábado porque somos adultos e respeitamos as regras, sejam elas quais forem. No entanto, todavia, não obstante isso, lá pelas tantas alguém foi ao carro e trouxe de lá um amplificador, um cabo e um violão e, assim, transformamos a festa de aniversário em sunset party à moda da casa: cantando Dazaranha, só para inticar:

"Vem comigo, meu bem, não pergunte a ninguém
O dono desse mar
Vem comigo, meu bem, não pergunte a ninguém
Se você pode entrar"

Ah, quase me esqueço de registrar: quando o sol já desabava lá para os lados do Cambirela, um grupo de nova-iorquinos que ocupava uma churrasqueira vizinha se juntou a nós, entusiasmados com a música e a alegre cantoria. Conversa daqui, conversa dali, descobrimos que eles não conseguiam entender por que não podiam ir até a praia se havia um portão de acesso à praia. Nós explicamos a eles a questão do regulamento, e tal, mas logo mudamos de assunto, por favor fiquem à vontade. E eles beberam da nossa cerveja e comeram da nossa carne e, lá pelas tantas, questionados se haviam gostado da cidade e se voltariam uma ou outras vezes, um deles nos respondeu com um sorriso rasgado no rosto: "Claro que sim, mas no verão, que é para pegar o portão aberto". E gargalhou como se estivesse em casa.

Para que não fiquem dúvidas de que todos respeitamos o regulamento no último sábado, registrei a festa no momento em que recebemos os turistas. Pode contar: estão todos em volta da caixa de som.

Saudações, Sr. autor do regulamento, e uma excelente baixa temporada para o Sr. e os seus.

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Sobre o colunista

Felipe Lenhart

Crônica de segunda

Felipe Lenhart

Felipe Lenhart é jornalista e editor do DeOlhoNaIlha. Escreve crônicas desde a faculdade. No Diário Catarinense, foi cronista interino de Sérgio da Costa Ramos e titular no caderno Variedades. Considera o gênero enorme: da altura de Rubem Braga, da largura de Nelson Rodrigues e com o peso de Luis Fernando Verissimo.

Contato: felipe.lenhart@gmail.com

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