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As senhoras

Deolhonailha: 29/04/2013 - Postado por: Felipe Lenhart

As senhoras

Foto: Divulgação

As senhorinhas iam um pouco adiante. Uns 15 passos à frente. Caminhavam com a vagareza que a idade traz, com a tranqüilidade que a aposentadoria dá. E conversavam. Mas era um dia ensolarado. É importante dizer que fazia um sol de tostar cebolas, e as duas velhinhas caminhavam agarradas cada uma na sua sombrinha. E tinham casaquinhos jogados sobre os ombros corcundas, mas não usavam chapéu, nem vestiam luvas brancas. Só por isso as duas não formavam uma dupla de foto antiga, daquelas em sépia, batidas numa hora qualquer num centro qualquer de um Rio de Janeiro dos anos trinta. Prevenidas contra o frio, porque vento sul não se doma nem se adivinha, precavidas contra a chuva, pois com esse tempo nunca se sabe, as senhoras caminhavam um pouco mais ali… E entre mim e elas havia uma distância de pelo menos meio século.

Eu olhava as setuagenárias assim de longe, apreciando o andar vagaroso e a sem-cerimônia com que as amigas (de cara supus que eram íntimas) enfrentavam o sol da tarde e o tumulto do Centro num dia de semana, às vésperas de um feriado nacional. E então me aconteceu o inexplicável. Baixou-me uma súbita e incontornável preocupação. Eu precisava com urgência me certificar da saúde e do bem-estar daquelas boas senhoras. Cheguei a parar um momento, espantado com aquela determinação repentina e imprevisível. Que será daquelas velhas, pensei comigo. E fui me arrastando atrás delas, de olho naqueles corpos redondos. As duas iam de saia, sapatos de salto, trotando pela calçada, décadas à frente.

Estávamos (logo também pluralizei os pensamentos, eu no mundo só me reconhecia no rastro daquelas velhotas), íamos, dizia, por um calçadão movimentado. Elas conversando ali adiante e eu… Bem, eu ia inquirindo a mim mesmo. Caminhando com a vagareza de um recém-quebrado, com a moleza de ânimo de um infeliz. Desfiava perguntas. Serão viúvas? Vizinhas? Amigas de infância? Algum de seus filhos terá morrido? Em Finados, vão ao cemitério, levam flores ao marido? Terão casado de novo? Gostam de suas noras? Têm netos, bisnetos? Masturbam-se, depilam-se? (Mentira, isso eu não pensei.) Enfrentam filas do INSS? Quantos comprimidos diários tomam? Vão ao bingo, jogam na Sena? Apresentam a identidade para não pagar a passagem do ônibus? Os marmanjos lhes cedem o lugar, lhes dão licença? Serão acaso poetas? Mas que diabo conversam?

E as velhas pararam. Eu interrompi de pronto meus delírios, e aí percebi que a distância entre mim e elas havia aumentado bastante. Apalpei os bolsos, fingi (para quem?) um esquecimento, uma lembrança tardia, e fui para debaixo de uma marquise. Acendi um cigarro. Olhei de novo para as senhorinhas. Elas agora gesticulavam diante da vitrine, apontavam o dedo para a parede e faziam comentários. Isso eu percebi bem. Julguei até que levavam muito a sério o que diziam, porque à fala de uma seguiu-se uma careta da outra, como quem exprime “será?”. E a que falara voltou à carga, dessa vez brandindo a sombrinha, quem sabe querendo convencer a outra de sabe-se lá o quê. Mais de minuto nessa.

Não pude resistir. Decidi: “vou lá perto ouvir essas velhas”. Saí de debaixo da marquise e o sol me agrediu os olhos. Dei a última tragada no cigarro e apressei o passo. Precisei desviar de algumas pessoas, contornar um telefone público, ignorar dois entregadores de folhetos. Quando eu já estava bem próximo das velhas, uma terceira se aproximou da dupla. E ocorreu uma comunhão de senhoras alegres. As duas abraçaram e beijaram a terceira, cada uma a sua vez, e ficaram ali, diante da vitrine da loja que eu ainda não conseguira identificar. Mesmo assim segui em frente, me dirigi em direção a elas. Estava chegando, diminuí o passo. Olhei a loja, era uma Sex Shop pouco discreta. Atrás do vidro, um manequim de cueca comestível, uma boneca inflável com expressão de espanto. Apurei o ouvido. Já ouvia suas vozes. Quase lá. Agora…

Elas falavam em alemão.

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Texto de 2006.

Sobre o colunista

Felipe Lenhart

Crônica de segunda

Felipe Lenhart

Felipe Lenhart é jornalista e editor do DeOlhoNaIlha. Escreve crônicas desde a faculdade. No Diário Catarinense, foi cronista interino de Sérgio da Costa Ramos e titular no caderno Variedades. Considera o gênero enorme: da altura de Rubem Braga, da largura de Nelson Rodrigues e com o peso de Luis Fernando Verissimo.

Contato: felipe.lenhart@gmail.com

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