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MEIO AMBIENTE
Conheça o colunista: Gelter Muller

Biocombustíveis: solução ou mais um problema?


16-11-2008

Os Biocombustíveis são combustíveis de origem biológica. São fabricados a partir de vegetais, citando o milho, soja, cana-de-açúcar, mamona, canola, babaçu, cânhamo, entre tantos outros. O lixo orgânico também pode ser usado para a fabricação de biocombustível.

Os biocombustíveis podem ser usados em veículos (carros, motocicletas, caminhões, tratores, barcos, etc) integralmente ou misturados com combustíveis fósseis.

Uma das vantagens de se usar os biocombustíveis é a redução significativa da emissão de gases poluentes do efeito estufa (GEE). Vindo de fontes de energia renovável, ao contrário dos combustíveis fósseis (óleo diesel, gasolina querosene, carvão mineral), seu uso provoca um impacto negativo menor ao planeta do que os de origem fósseis.

Como desvantagem, para a sua produção, há necessidade de grandes áreas para plantio dos vegetais que dão origem aos biocombustíveis, ocasionando assim, por conseqüência, a diminuição a produção de alimentos no mundo. Buscando lucros maiores, muitos agricultores preferem produzir milho, soja, canola e cana-de-açúcar para transformar em bicombustível.

Pode-se citar como os principais biocombustíveis o etanol (produzido a partir da cana-de-açúcar e milho), biogás (produzido a partir da biomassa), bioetanol, bioéter, biodiesel, entre outros.

Em abril deste ano, Jean Ziegle (que já foi relator da ONU para ao Direito à Alimentação) disse que “a transformação de alimentos em biocombustíveis e a especulação financeira são as principais causas da alta dos preços dos produtos alimentícios”. Jean disse ainda que ao transformar vegetais em biocombustíveis provocou-se uma escalada dos preços de produtos básicos alimentícios, que para ele é “uma verdadeira tragédia”.

A importante revista Science, em sua edição de 3 de outubro deste ano, publicou um artigo que foi o resultado de discussões feitas durante o workshop realizado em março (de 2008) pela Sociedade Ecológica dos Estados Unidos. O grupo internacional de especialistas em biocombustíveis, agronomia, economia, biologia e conservação alertou para os perigos relacionados aos biocombustíveis: “se a produção de biocombustíveis for feita de forma sustentável, este terá um papel importante na mitigação das mudanças climáticas, melhoria da qualidade do ambiente e fortalecimento da economia mundial. Para isso, pesquisas e políticas com base sólida científica serão necessários”, afirmaram os cientistas.

Segundo os cientistas, combustíveis à base de celulose, produzidos a partir de partes não-comestíveis ou tradicionalmente não-consumíveis de plantas, têm grande potencial de se tornar uma alternativa importante para os combustíveis fósseis e mesmo para o etanol à base de grãos, como soja ou milho. Porém, esse ganho positivo pode ser abafado por escolhas infelizes como plantio em locais errados ou práticas de gerenciamento ineficientes, que causam danos ambientais, ressaltam os cientistas.

Ainda segundo os cientistas, a produção de biocombustíveis a base de celulose pode ter muitos fatores positivos (sociais e ambientais), porém se não for realizado de forma correta, com planejamento, estudo e com base em sustentabilidade pode sofrer também de vários dos problemas que hoje envolvem os combustíveis à base de grãos.

Para os cientistas, é fundamental que os tomadores de decisão “em todos os níveis” entendam que aplicar as melhores práticas (estudo científico, planejamento, ações organizadas...) para a produção de biocombustíveis terá impactos positivos tanto para sustentabilidade das áreas cultiváveis como para fornecer um espaço a longo prazo para os biocombustíveis como um dos destaques de energias renováveis.

E, de acordo com eles, as políticas necessárias para que isso seja feito simplesmente não existem atualmente. “Padrões ambientais são necessários agora, antes que a indústria se mova da fase de pesquisa e desenvolvimento”, afirmou Phil Robertson, professor da Universidade Estadual de Michigan e primeiro autor do artigo. O artigo Sustainable biofuels redux, de Phil Robertson e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.

Importantes entidades (FMI, ONU, FAO) fazem restrições, críticas aos biocombustíveis. Em matéria publicada pela GLOBONEWS em 7/10/2008 a Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação criticou os biocombustíveis. Segundo a FAO, eles contribuem para a alta do preço dos alimentos. Exceção foi o etanol brasileiro, onde estudos comprovaram que o etanol derivado da cana-de-açúcar é o melhor dos biocombustíveis, poluindo menos e com custo menor de produção. Entretanto muita cautela para analisar todos os impactos ambientais envolvidos. Veja a reportagem no link abaixo:

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM893394-7823-FAO+FAZ+ELOGIOS+AO+ETANOL+BRASILEIRO,00.html

Uma matéria interessante também foi realizada pela REDE BANDEIRANTE sobre a produção de biocombustíveis (biodiesel) a partir do resíduo do óleo de cozinha. Veja o vídeo no topo da coluna, ou acesse o link abaixo:

http://br.youtube.com/watch?v=AjWnSLHP314&feature=related

Não se tem dúvidas que os biocombustíveis são uma alternativa para a diminuição dos GEE, mas, importante também é discutir o impacto ambiental causados por eles. Uma importante observação fez o engenheiro Luiz Carlos Porto: “se a produção dos vegetais que são matéria-prima para o biocombustíveis se dá dentro do mesmo modelo agrícola insustentável usado até hoje, por que o impacto ambiental seria diferente?”

Cabe aqui reproduzir uma importante entrevista dada pelo ambientalista americano Lester Brown, fundador da ONG Worldwatch Institute (WWI) para a folha de São Paulo em setembro de 2007. Lester é uma das pessoas mais críticas ao modelo atual dos biocombustíveis e sua entrevista, suas palavras, ainda podem ser utilizadas hoje. O que está por dizer na entrevista é a preocupação da produção do modelo atual dos biocombustiveis x alimentos e ameaça a biodiversidade da Terra.

Folha - O sr. tem uma posição distinta da maioria dos ambientalistas em relação ao uso do álcool como combustível. Por quê?
Lester Brown - Muitos ambientalistas estão mudando de posição em relação a essa questão. O cenário de um ano atrás não é mais o mesmo hoje, pelo menos não nos Estados Unidos. Se utilizarmos quantidades crescentes de grãos para dar combustível aos carros, isso levará à alta no preço de alimentos e será uma ameaça à população mais pobre do planeta.

Os ambientalistas estão retirando apoio ao álcool e falando em carros híbridos [movidos a gasolina e eletricidade] que podem ser recarregados em uma tomada, vistos cada vez mais como a solução para os Estados Unidos. O Toyota Prius é o carro híbrido mais popular nos Estados Unidos. Se for agregada a ele uma segunda bateria com tomada, será possível recarregá-la à noite em casa. Com isso, os percursos de curta distância seriam realizados totalmente com eletricidade. Se fizermos isso nos Estados Unidos, poderemos reduzir nosso consumo de petróleo em cerca de 80%.

Se, ao mesmo tempo, investirmos em centenas de usinas eólicas [movidas a vento], agregaríamos energia barata à nossa rede de transmissão, o que nos permitiria ter energia equivalente a um galão de gasolina por US$ 1. Está surgindo uma grande coalização entre companhias de eletricidade, corporações, ambientalistas e governos municipais e estaduais para encorajar a adoção desse caminho.

Folha - O sr. fala em um "confronto épico" entre os 800 milhões que têm carros e as 2 bilhões de pessoas mais pobres do mundo, que vêem os preços dos alimentos subirem. Os vencedores desse confronto, pelo menos até agora, parecem ser os 800 milhões de motorizados, considerando os pesados investimentos na produção de álcool.
Brown - Por enquanto, os 800 milhões têm sido vitoriosos, porque houve enormes investimentos em usinas de álcool nos Estados Unidos. A capacidade de produção em construção é maior que a capacidade de todas as usinas criadas desde o início do programa [de fabricação de álcool], em 1978.

Até o fim do próximo ano (2008), quase 30% da colheita de grãos irá para usinas de álcool, reduzindo a quantidade disponível para exportações. Como o mundo depende fortemente dos Estados Unidos, que é um dos maiores exportadores de milho e de trigo, isso vai criar problemas graves aos importadores de grãos, como Japão, Índia, Egito, Nigéria, México.

Folha - A recente inflação nos preços de alimentos no mundo pode ser atribuída ao álcool?
Brown - Há outros fatores, como falta de água, mas a causa principal da inflação nos últimos seis meses tem sido o aumento no preço de grãos. Isso ocorre em todos os lugares do mundo: no preço do porco na China, da tortilha no México, da cerveja na Alemanha.

Folha - Com tantos investimentos no setor, é possível uma reversão no uso de álcool nos Estados Unidos?
Brown - Ninguém sabe. O que começamos a ver é uma reação dos consumidores. Estamos em uma situação inusual, na qual subsidiamos a alta do preço de alimentos. Como contribuintes, estamos dando os subsídios que vão para a produção do álcool. Perdemos nas duas pontas, como contribuintes e como consumidores.

Folha - Além disso, a produção de álcool com milho é pouco eficiente.
Brown - Sim, especialmente se comparado ao álcool produzido por cana-de-açúcar. Para cada 1 unidade de energia usada na produção de álcool a partir do milho, é obtida 1,3 unidade de energia, o que dá um ganho de 30%. No caso da cana-de-açúcar, para cada 1 unidade de energia utilizada, são obtidas 8 unidades de energia.

Folha - O álcool produzido a partir da cana-de-açúcar é uma opção viável aos combustíveis fósseis?
Brown - Poderia ser nos países que podem plantar cana-de-açúcar. Nós não podemos plantar muito, porque estamos no hemisfério Norte. Mas, se países que já são grandes produtores, como o Brasil, tentarem satisfazer não apenas seu mercado interno mas também exportar, haverá desmatamento, pela expansão da produção de cana-de-açúcar ou porque a expansão da cana toma espaço de outras culturas, como soja [que ocupariam outras áreas].

A preocupação que está emergindo na comunidade internacional de ambientalistas em relação aos biocombustíveis é o efeito que eles estão tendo no desmatamento na Amazônia brasileira e no sudeste asiático, onde Malásia e Indonésia são os principais produtores de óleo de palmeira, que é usado como biodiesel.

Se eu tivesse que identificar a mais importante ameaça à diversidade biológica da Terra, ela seria a demanda crescente por biocombustíveis - álcool no caso do Brasil ou biodiesel no caso do sudeste asiático.

Eu não diria que o Brasil deve interromper sua produção de álcool. A minha sugestão é que o Brasil comece a desenvolver outras fontes de energia, incluindo a solar e a eólica, em que tem grande potencial.

Folha - A China acaba de superar os Estados Unidos como o maior emissor de gases de efeito estufa. A Terra é grande o bastante para acomodar os milhões de emergentes consumidores chineses?
Brown - Eu sempre escutei que os Estados Unidos, apesar de terem apenas 5% da população mundial, consumiam quase 40% dos recursos da Terra. Isso não é mais verdadeiro.

A China hoje consome mais da maioria dos recursos básicos do que os Estados Unidos, com exceção de petróleo. O consumo de carne da China hoje é o dobro do registrado nos Estados Unidos. O de aço é o triplo.

O que acontecerá se a China alcançar os Estados Unidos em consumo per capita? Se o crescimento chinês se reduzir para 8% ao ano, em 2031 a renda per capita da China será a mesma da dos Estados Unidos hoje [com valores ajustados pela Paridade do Poder de Compra].

Se os chineses tivessem o mesmo padrão de consumo dos americanos, em 2031 a população de 1,4 bilhão ou 1,5 bilhão da China consumiria o dobro da atual produção de papel de todo o mundo. Se houver três carros para cada grupo de quatro pessoas, como nos Estados Unidos hoje, a China teria 1,1 bilhão de carros. Em todo o mundo hoje há 800 milhões. O consumo de petróleo seria de 99 milhões de barris ao dia. A produção atual de petróleo é de 85 milhões de barris por dia.

O que a China está nos ensinando é que o modelo econômico ocidental, centrado em combustíveis fósseis, no uso de carros e no desperdício, não vai funcionar para o país. Se não funcionar para a China, não vai funcionar para a Índia, que em 2031 deverá ter uma população maior que a da China. Há 3 bilhões de pessoas nos países em desenvolvimento sonhando o sonho americano.

Folha - A questão é essa: todos sonham o sonho americano.
Brown - Sim, e em uma economia cada vez mais integrada, na qual todos nós dependemos dos mesmos grãos, petróleo e aço, esse modelo também não vai funcionar para os países industrializados. O que temos que fazer é pensar em uma nova economia, com fontes renováveis de energia, que tenha um sistema de transporte diversificado e que reúse e recicle tudo.

Folha - Há disposição entre os líderes chineses para mudar o padrão de desenvolvimento do país?
Brown - Eles publicam quase tudo o que eu escrevo. O primeiro-ministro Wen Jiabao começou a me citar em alguns de seus discursos. As coisas mais estimulantes que aconteceram em energia renovável nos últimos anos aconteceram na China. Até o fim deste ano, 40 milhões de casas terão água aquecida por energia solar, captada por painéis colocados nos telhados das casas, e o número deve quadruplicar até 2020.

Folha - É possível para a China mudar o padrão de desenvolvimento e caminhar na direção de fontes renováveis de energia sem sacrificar o crescimento econômico?
Brown - Se não reestruturarmos a economia mundial, o crescimento econômico será insustentável. Precisamos reestruturar a economia muito mais rapidamente do que a maioria das pessoas imagina.

Os números que mencionei sobre a China como nação consumidora se referem a 2031, quando eles estariam consumindo mais recursos do que o mundo possui. Se não reestruturarmos a economia no mundo, o progresso econômico provavelmente não se sustentará.


Gelter Muller
Eng Sanitarista e Ambiental
Consultor Ambiental

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EVENTOS:

ECOBUILD & Futurebuild 2009
Sustainable design, construction and the built environment
03/03/09 a 05/03/09 – Earls Court, Londres/Inglaterra
A ECOBUILD é um grande evento anual que acontece voltado para a arquitetura e construções sustentáveis, envolvendo também os profissionais que trabalham com esse tema. Sucesso desde 2004, a ECOBUILD apresenta o que o mercado vem propondo em tecnologias, produtos e inovações em construções sustentáveis.
Maiores informações pelo site: www.ecobuild.co.uk

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