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O cão e o prédio

Deolhonailha: 08/04/2013 - Postado por: Felipe Lenhart

O cão e o prédio

Foto: Divulgação

O fato é que vira e mexe o cão está ali, em frente ao portão do prédio, deitado com a barriga quente no concreto frio, à espera do quê ou de quem eu só desconfio, mas tenho perguntado isso a ele quase todos os dias, quando chego do trabalho e o encontro ali, em frente ao portão do prédio, deitado com a barriga quente no concreto frio, o focinho apontado para o alto enquanto as patas traseiras se espicham num espreguiçamento semelhante ao meu e ao seu.

Eu questiono dele o porquê dessa espera metódica, pontual. Faço-lhe festas na cabeça, aperto-lhe a pelanca da nuca (aprendi num romance que os cachorros sentem um prazer atávico quando a gente pega a pelanca da nuca deles, que é por onde a cadela que os pariu os suspendia para levá-los de um lado a outro enquanto eles não conseguiam andar sobre quatro patas), e acho que ele gosta muito disso tudo. No entanto, não sai do lugar, não se distrai.

O cão é preto, de porte médio. Não o vejo nunca de dia, à luz do sol ou sob o céu nublado que às vezes faz ali no Córrego Grande. Só à noite, e deitado em frente ao portão do prédio. Minto, ou me corrijo: ele se deita um pouco para o lado, não exatamente na frente do portão. Alguns cães são mais inteligentes que crianças, e este já aprendeu a não ter de se levantar quando alguém abre o portão para sair ou entrar do edifício.

Não me parece que o negro cão misterioso tenha um dono, ou que alguém cuide dele. Minha impressão: é um cão forte, esbelto e que sabe cuidar de si mesmo. Sua vigília, não sei que horas começa. Sua espera, não sei que horas termina. No entanto, ele aguarda, tem paciência, estoicismo e força de vontade, e eu o encontro quase todos os dias esbanjando essas virtudes, logo que salto do ônibus.

Não digo que seja uma pena os cães não falarem. Eles já possuem a habilidade de latir, e de falastrões já nos bastam os vizinhos, os passageiros do ônibus, os clientes do bufê na hora do almoço, no rádio e na televisão - talvez a música tenha sido inventada para aplacar todo esse falatório de que os seres humanos somos capazes. De qualquer forma, há cães com os quais dá muita vontade de conversar, e esse preto é um deles.

Eu me esforço. Mais que festas, mais que carinho, o cão ganha de mim um monte de frases, um balde de palavras. Pergunto por quê, como, onde e desde quando, diabos, vocês está aqui na frente? Ele gosta - deixa claro isso quando se estica todo, e suspira -, mas não desvia o olhar da porta do prédio por muito tempo. Outros cães habitam o edifício, e desconfio que ali haja cadela vistosa.

Deve ser amor. Pelo menos foi quando sugeri essa possibilidade pela primeira vez que, também pela primeira vez, o cão ganiu e se mexeu, apoiando-se nas patas traseiras. De alguma forma, ele compreendeu que eu acabava de humanizá-lo. Eis um cão apaixonado.

Sobre o colunista

Felipe Lenhart

Crônica de segunda

Felipe Lenhart

Felipe Lenhart é jornalista e editor do DeOlhoNaIlha. Escreve crônicas desde a faculdade. No Diário Catarinense, foi cronista interino de Sérgio da Costa Ramos e titular no caderno Variedades. Considera o gênero enorme: da altura de Rubem Braga, da largura de Nelson Rodrigues e com o peso de Luis Fernando Verissimo.

Contato: felipe.lenhart@gmail.com

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