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Política literária

Deolhonailha: 18/03/2013 - Postado por: Felipe Lenhart

Política literária
''Don Quixote'' (1955), de Pablo Picasso.
Foto: Reprodução

Era uma velha pequenina, de espírito cândido. Em suas mãos circulavam, nos fins-de-semana de solidão e nos dias cinzas, tristes, os livros clássicos. Ela os relia com a mesma satisfação da primeira vez. Descobria uma personagem nova, que antes era mera coadjuvante, apagada e sem cheiro, sem eira ou beira, e a saudava com um sorriso amigável. Descobria também outras nuances, outros contornos. Embalava-se horas e horas na maltratada cadeira de balanço, os olhos apertados em busca das frases eternas. Até que uma vez, sentada na varanda acompanhando o lento crepúsculo de um dia que fora lindo, resolveu criar a “política literária”. E assim foi.

Escolheu os candidatos: Dom Quixote (o de sua preferência e agrado), Hamlet, Otelo (um negro tinha que ter), Brás Cubas (ah, o emplastro, santo remédio), Gulliver (“político” rodado, experiente), Alice (a mulher) e Baleia (a cadelinha, representante do povo). Criou slogans bobos: ser ou não ser presidente?; vote Alice, a mulher maravilha!; Gulliver, presidente pra mais de metro. Promessas vãs: abaixo a fogueira de livros; viva Amadis de Gaula; todos terão o direito de escrever suas memórias de trás para frente (em respeito aos vermes, meus cabos eleitorais); proibirei a ação dos invejosos, em especial dos Iagos malvados. Deu certo. Reuniu os netos, distribuiu-lhes pequenas biografias escritas em linguagem infantil e cada um escolheu seu “candidato”. Decidiu: ela mesma seria Quixote (a fraude, pois não).

Uma semana depois, tudo certo. Eliana, onze anos, interpretou Alice, e não chegou a 10% do eleitorado (o resto da família). O cão da casa, Faísca, mergulhou no mundo de Baleia, e ao fim da campanha estava todo desmilingüido, o coitado: ganhou 3% dos votos, por compaixão dos eleitores mais sensíveis. Lucas, o caçula, virou um Hamlet vigoroso: andava pra cima e pra baixo com o crânio de um passarinho morto na mão e um lençol do Mickey enrolado no pescoço, falando “sê ou não sê?”. Foi um fenômeno eleitoral: 15%. Brás Cubas, que era o neto Pedro, andava vendendo balas de goma na vizinhança e dizia que curava tudo, até mesmo espirro. Já a velha, Dom Quixote até a medula, ia eufórica pela semana adentro, incentivando a molecada dizendo que a eleição estava ganha a seu favor: não haveria feiticeiro que a barrasse da presidência.

Totalizada a apuração, ganhou a velha. Não houve choro nem lamentação: a criançada pulava exultante, dava parabéns à avó, pois ela merecia. Então a velha, que fizera aquilo como brincadeira para passar o tempo, emitiu o primeiro decreto de seu governo de mentirinha: às seis horas da tarde, após o colégio, ela faria a leitura de Cervantes, no jardim, ao pôr-do-sol. Dessa maneira, o povo saberia como agir e ficaria atento às venturas e desventuras do presidente e sua comitiva.

Assim, durante dois meses, a velha leu as oitocentas páginas do Engenhoso Fidalgo para os netos. Depois, voltou à cadeira de balanço e lá morreu (Ulisses, de Joyce, no regaço) de um tédio profundo.

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Publicada originalmente no finado site Anjos de Prata, em algum mês de 2001.

Sobre o colunista

Felipe Lenhart

Crônica de segunda

Felipe Lenhart

Felipe Lenhart é jornalista e editor do DeOlhoNaIlha. Escreve crônicas desde a faculdade. No Diário Catarinense, foi cronista interino de Sérgio da Costa Ramos e titular no caderno Variedades. Considera o gênero enorme: da altura de Rubem Braga, da largura de Nelson Rodrigues e com o peso de Luis Fernando Verissimo.

Contato: felipe.lenhart@gmail.com

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