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Por quê?

Deolhonailha: 15/04/2013 - Postado por: Felipe Lenhart

Por quê?

Foto: Clube de Astronomia do Noroeste Fluminense

Hoje não vai ter crônica.

Porque há pleno emprego e jornais para todos, porque há dinheiro sobrando e todo mundo vive um grande amor, porque chova ou faça sol os passarinhos não desaprenderam a cantar nem as crianças a se divertir, porque papel de bala ainda traz dicas de flerte e pirulito só estraga os dentes de leite, porque os programas de televisão não são produzidos para nós, porque até no mais moribundo resta um fio de esperança no fim do túnel de luz que leva ao vazio, porque nos filmes tristes o final não é feliz e nem os filmes alegres terminam como a gente egoisticamente gostaria que terminassem, porque ninguém controla o que está ao redor, porque falar é fácil e pensar é que são elas.

Porque nem todo sorriso é legítimo e nem toda demonstração de alegria é verdadeira, porque fraudes se multiplicam e nós estamos mais interessados na audiência que se reúne diante dos nossos espelhos, porque as avós e os avôs partem dessa para a melhor sem nos consultar e as mães e os pais nos consultam a todo momento sobre cada passo em falso que damos, porque a poesia é assassinada diariamente por diletantes ordinários e abençoada de vez em quando por críticos ilegíveis, porque enganos acontecem e os celulares já fazem quase de tudo um pouco, porque antenas é o que não falta no terraço dos edifícios que não têm proteção contra incêndios, porque os radares deveriam era flagrar a estupidez das pessoas em vez de sua pressa.

Porque os policiais são orientados a patrulhar regiões pacificadas onde não acontece nada, porque não é que o servidor queira ficar de canto até a hora em que o chefe gritar o seu nome na porta do escritório, porque o secretário faz que não vê agora para depois declarar à rádio que foi enganado pelo calendário ou traído pela má interpretação de suas palavras sinceras, porque ninguém está a salvo de errar ou de ganhar na loteria federal, porque não se explica a mecânica do beijo bom nem a química do contato de peles compatíveis.

Porque há travesseiros que falam e apartamentos que respiram e geladeiras que fervem e fogões que não gelam e toda uma ciência desenvolvida a golpes de teoria barata que explica por que diabos os pinos e as agulhas e os demais objetos pequenos rolam para debaixo de armários e estantes e penteadeiras e cômodas de vagabundo mdf, porque nas noites de céu sem nuvens é possível dormir olhando estrelas pela janela do apartamento.

Porque hoje, decididamente, não vai ter crônica.

Sobre o colunista

Felipe Lenhart

Crônica de segunda

Felipe Lenhart

Felipe Lenhart é jornalista e editor do DeOlhoNaIlha. Escreve crônicas desde a faculdade. No Diário Catarinense, foi cronista interino de Sérgio da Costa Ramos e titular no caderno Variedades. Considera o gênero enorme: da altura de Rubem Braga, da largura de Nelson Rodrigues e com o peso de Luis Fernando Verissimo.

Contato: felipe.lenhart@gmail.com

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