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Manifesto: Saudades de Florianópolis

Deolhonailha: 18/02/2013 - Postado por: Felipe Lenhart

Manifesto: Saudades de Florianópolis

Foto: Eduardo Gentil/DeOlhoNaIlha

Florianópolis, saio de férias esta semana, e espero te reencontrar. Já faz mais de uma década que tu perdeste e não achaste mais o rumo do teu rancho, deixaste apagar a chama da tua pomboca, largaste de mão as rendas e a tarrafa num canto e abandonaste a tua baleeira ao sabor das ondas. Te emperiquitaste toda, ganhaste um vestido aqui, um day spa ali, levaram-te para um salão de beleza chique, até plásticas andaste fazendo, tu que és linda de nascença, por natureza, beleza sem par. Só andas de carro importado, estás irreconhecível. Mas eu tenho esperança de tornar a te ver nua, sem lenço e sem maquiagem durante esse período em que irei passear pelos teus cenários.

Ora, de repente, viraste a Ilha da Magia, título que faz jus à tua história, ao teu folclore e à personalidade da tua gente, embora tenha te deixado faceira além da conta. Depois, alguém te nomeou Capital Turística do Mercosul, sem que jamais tenhas te preparado para isso, demonstrado competência para exercer o cargo. Daí para frente, foste de elogio em elogio, de rapapé em rapapé, de declaração fulgurante em declaração fulgurante. E hoje estás aí, esnobe e orgulhosa, metida e provinciana como nunca.

Pudera. O assédio é implacável, e tu te deixaste levar. Jornais e revistas passaram a te paparicar como a uma estrela, e gente de todo o Brasil começou a falar de ti publicamente. O dia contigo. Uma tarde contigo. Uma noite dos deuses contigo. Um feriado de cinema contigo. Uma temporada inesquecível contigo. Viraste a capital mais invejada do Brasil, como se tu brilhasses dia e noite, não tivesses indisposições, achaques, dores de cabeça e de ouvido. O mundo olhava para ti e via a mulher dos sonhos. Floripa: #partiu.

Então, começaste a inchar. A comer de glutona, sem fome, e a beber como nunca, sem sede. A viver de salto alto, caminhando entre prédios cada vez maiores e numerosos, quando querias mesmo era andar descalça sobre a areia do mar. A sair dia e noite, num ritmo frenético, quase mecânico, que ofuscou o teu olhar e embruteceu a tua sensibilidade. Até as tuas praias, que o teu povo aprendeu na escola serem 42, viraram uma centena. E te perdeste.

Gente rica veio morar na tua região e a te transformar na marra em gente rica como eles. Bares, restaurantes e hotéis foram sendo abertos e fechados, um seguido do outro, até que a máquina engrenou. Te imaginaste Punta, Saint-Tropez, Ibiza, passaste a chamar berbigão de vôngole, a derrubar bar de praia e a erguer beach club, a preferir piscina à lagoa, os teus condomínios começaram a se comunicar em francês e inglês. Pegaste fama de mulher Classe A, que só se interessa por jogadores de futebol, traficantes milionários, pilotos de fórmula 1, políticos Don Juan, atores e DJs. Todos vestidos de branco e dourado, desfrutando uma interminável sunset party isenta de fiscalização e imposto de renda.

Não tens terminais de ônibus decentes, um sistema de transporte coletivo que funcione, mas reclamas marinas para aportares as tuas lanchas e os teus iates. Tu, que eras a cidade das bicicletas, dos campinhos e dos ônibus pontuais, em que motorista conhecia passageiro, que conhecia cobrador, viraste um lugar do carro, para o carro, pelo carro, de avenidas mal desenhadas, viadutos improvisados, semáforos que não conversam, ciclovias que levam do nada a lugar nenhum, operações tapete preto. As tuas praias estão cheias de lixo, os motoristas cada vez mais desrespeitosos, a tua gente cada vez menos educada.

Aos poucos, a convivência entre os teus foi arruinada. Os teus festejos de bairro minguaram, porque as pessoas começaram a se matar aos socos e às facadas e aos tiros. As festas municipais foram enclausuradas dentro de "centros de eventos", como em "cidades grandes", com uma dinâmica excludente, elitista, e já ninguém lhes dá a mínima - e aqueles que apostavam tudo nelas, a tua gente mais precisada, ficou a ver canoas, entregue à intempérie econômica, sem pulseirinha, área VIP, cortesia, camarote, listas bônus.

Mas então veio esse memorável carnaval de 2013, em que, mesmo sob atentados, incêndios e tensão, o teu povo voltou à praça como antigamente, todo mundo junto e misturado, batendo tambores e recordes de presença e de alegria. Eu pego o embalo e saio de férias, confiante de que irei te reencontrar.

Vou, por exemplo, àquele canto esquecido das dunas dos Ingleses para ver se estás por ali, estendendo redes de pesca com os nativos ou descendo as ondas de areia em cima de caixas plásticas besuntadas de vela. Subirei o costão esquerdo do Santinho para que, juntos, relembremos a época em que os costões eram virgens e livres de especulação imobiliária. Vou saltar para dentro de um barco e ir até a Ilha do Campeche batendo papo com o pescador sobre a escassez atual que grassa nesse marzão que te circunda. Vou tomar banho em praias que, ao se verem livres de turistas e visitantes, nos presenteiam com a água mais verde-cristalino de que se tem notícia. Vou marchar até a Lagoinha do Leste e lá dormir uma noite, para ver se te escuto cantar numa roda de violão à luz da fogueira...

Vou, enfim, passear pelas tuas entranhas, para ver se te reencontro, pois já estou com saudades.

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O colunista volta a escrever neste espaço dia 11/3.

Sobre o colunista

Felipe Lenhart

Crônica de segunda

Felipe Lenhart

Felipe Lenhart é jornalista e editor do DeOlhoNaIlha. Escreve crônicas desde a faculdade. No Diário Catarinense, foi cronista interino de Sérgio da Costa Ramos e titular no caderno Variedades. Considera o gênero enorme: da altura de Rubem Braga, da largura de Nelson Rodrigues e com o peso de Luis Fernando Verissimo.

Contato: felipe.lenhart@gmail.com

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