


Ricardo Valls nasceu no Rio de Janeiro, mas, mesmo sem saber, sempre morou em Florianópolis, embora esteja aqui há apenas uma década. Carioca de nascença, florianopolitano de alma e coração - e por opção. Orgulhoso cidadão desta espetacular cidade, para a qual dedica grande parte de seu tempo, com os objetivos de proteger suas maravilhas e ajudar a consertar suas mazelas.
Administrador, atua como consultor de desenvolvimento imobiliário e turístico, em todo o Brasil. Como executivo de empresas nacionais e multinacionais, viajou por dezenas de países, em vários continentes. É fundador da IMOBISUL - Associação para o Desenvolvimento Imobiliário do Sul do Brasil. Tem como hobbies o mar e a música, mas só do tipo boa. Adora ler e, agora, espera ser lido...
A coluna Floripa do Futuro tem o objetivo de discutir e propor soluções sustentáveis para o futuro da nossa amada cidade. Surgiu a partir da coluna WTTC em Floripa, na qual Ricardo Valls escreveu durante quase 5 meses, sobre o mais importante evento que Florianópolis já recebeu.
Tenho lido notícias diárias sobre o estaleiro da OSX e a mobilização nas audiências públicas.
As posições são as mais conflitantes - gente que defende o progresso econômico contra gente que defende o progresso ambiental. Como se os dois não pudessem coexistir. Como se um não pudesse assegurar o outro e, até mesmo, aprimorá-lo. Quanta tolice...
Um dos argumentos que mais verifico contra o estaleiro diz que a sua instalação iria inviabilizar o turismo na região, cuja vocação é claramente turística.
Bem, não questiono a vocação turística de uma cidade tão privilegiada como Florianópolis e também de seus municípios vizinhos, em especial Gov. Celso Ramos e Palhoça. Mas, mesmo sem concordar que o estaleiro inviabilizará o turismo,fico me perguntando se esta vocação já não foi inviabilizada muito antes do estaleiro.
Afinal, na Florianópolis turística, não poderíamos ter uma estação de esgoto na entrada da cidade e uma elevatória em frente ao metro quadrado mais valorizado da centro urbano; nem um centro de convenções ou um sambódromo, ambos de gosto bastante duvidoso, na beira do mar, porém de costas para ele. Apenas impedem o acesso e não valorizam a fruição daquele maravilhoso cartão postal. Muito pior: não poderíamos ter aterrado aquela enorme porção de mar e colocado inúmeras pistas automotivas ali, ao invés de fazermos um belo parque e equipamentos de lazer variados, permitindo a convivência dos moradores e turistas com o mar. Tínhamos o mar no Mercado Público...!
Na Florianópolis turística, não poderíamos ter tantos prédios públicos ou similares em locais privilegiados como a casa do Governador (poderia ser um parque), a Polícia Federal (poderia ser um belíssimo museu), a OAB, o Conselho de Contabilidade, o tribunal de Contas, o Fórum e o prédio novo da Receita Federal - para citar alguns. Nem poderíamos ocupar as áreas centrais da ilha com infindáveis repartições públicas - por que não ficam no continente? Qual o valor turístico do prédio da Câmara dos Vereadores atual? E da Assembléia Legislativa? Este era bonito antes de pegar fogo, há mais de 50 anos. Mas, agora?
Na Florianópolis turística, não poderíamos ter uma barreira de construções nas beiras das praias, como nos Ingleses, em Canasvieiras ou na Brava. Nem uma lei de parcelamento do solo tão irresponsável e parcial - pode para uns, não pode para outros e o que pode quase sempre estraga. Vejamos os bairros do Itacorubi, a Trindade e o João Paulo. Excesso de densidade populacional, comprometimento infraestrutural e, péssimo para o turismo, a danificação da linda paisagem com o surgimento de espigões sem sentido - a não ser para o bolso de quem fez. Mais inteligente seria permitir a ocupação com vários prédios baixos e charmosos, em regiões mais extensas e horizontais, ligadas por áreas de comércio e com parques entre elas. Como se vê em tantas cidades desenvolvidas no mundo afora.
Nosso planejamento urbano é ZERO.
Como somos apoiadores do turismo, se volta e meia tentamos prender nossos principais empreendedores neste segmento econômico, aqueles que tornaram a cidade consagrada e reconhecida em todo o mundo, pela excelência de suas iniciativas, premiadas diversas vezes no Brasil e sinônimos de qualidade para a maioria de seus usuários? Não é exagero dizer que a cidade deve boa parte de sua fama internacional atual a estas pessoas.
Como somos voltados para o turismo, se nem mesmo temos marinas em uma ilha...??? Colocamos 200 mil carros na rua todo dia e esquecemos de usar o mar, esta via de circulação gratuita que já está pronta e apenas espera ser usada com sabedoria. A baía é abrigada e admitiria uso bastante seguro do transporte marítimo, sem comprometimento ambiental de qualquer tipo.
Aliás, como discutir comprometimento ambiental e ainda associar esta idéia ao turismo, sem lembrar que temos um índice de tratamento de esgoto equivalente ao da Idade Média, em plena capital do estado? Mais da metade da população não trata seu esgoto e o dispensa através de fossas ou diretamente na natureza - o que dirão nossos turistas, caso estejam cientes desta situação? E nossa água, aquela que bebemos? É própria para consumo mesmo? Que substâncias são adicionadas a ela, desde seu estado bruto no manancial do Cubatão até nossas casas? Podemos beber em segurança? Ninguém sabe, ninguém diz.
Se somos uma cidade turística, como que nossos restaurantes e lojas fecham sábado após 14h e não abrem mais até a segunda-feira? É um contra-senso, pois os turistas aproveitam para nos visitar exatamente nos fins de semana. E onde estão os bares na beira do mar, os parques e outros equipamentos de integração da cidade com a natureza exuberante que a cerca? Fora honrosas exceções, não existem.
Bem, é possível escrever muitas linhas sobre o tema. Mas a conclusão é uma só: não somos uma cidade com vocação turística. Porque isto está na cabeça das pessoas e, principalmente, dos governantes. Ou os moradores querem que isto aconteça de fato, ou não acontece.Quando a cidade quer ter vocação turística, seus habitantes lutam e trabalham por isso. Vejam Las Vegas e Dubai. Ou várias outras cidades bem menores que souberam explorar seus parcos recursos turísticos muito mais e melhor do que nós. A nossa cidade tornou-se o que ela é hoje porque alguém determinou desta forma. E ninguém reclamou ou quis impedir.
Talvez não tenhamos a cidade que queremos. Mas, provavelmente, temos a cidade que merecemos.
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