Santa Catarina mantém liderança no crescimento industrial brasileiro com alta de 4,8% em 2025, mas cenário de juros elevados e incertezas globais exigem atenção
Por Dudu Gentil | Editor deolhonailha.com.br
A indústria catarinense segue demonstrando sua força e resiliência em meio a um cenário econômico desafiador. Dados recentes do IBGE revelam que, entre janeiro e maio de 2025, o setor industrial do estado cresceu 4,8%, mais que o dobro da média nacional de 1,8%. Este desempenho coloca Santa Catarina como o terceiro estado com maior crescimento industrial do país, atrás apenas do Pará (9,6%) e Paraná (5,7%).
O resultado impressiona ainda mais quando analisamos o contexto: enquanto o Brasil enfrenta uma política monetária restritiva com a Selic projetada em 15% até meados de 2025, a indústria catarinense consegue manter seu dinamismo, impulsionada pela diversificação produtiva e pela força das exportações, que atingiram recorde histórico de US$ 5,85 bilhões no primeiro semestre.
Setores em destaque e a força do interior
O crescimento não se concentra apenas na capital ou nas grandes cidades. A característica mais marcante da indústria catarinense é justamente sua distribuição geográfica equilibrada, herança do processo histórico de colonização. Joinville continua liderando como polo metalmecânico, enquanto Blumenau se consolida como referência em tecnologia e inovação, sediando o primeiro laboratório de inteligência artificial generativa do estado.
Os números setoriais impressionam: a fabricação de produtos de metal cresceu 19,3%, móveis avançaram 10,3%, e produtos de minerais não metálicos subiram 9,4%2. Até mesmo setores tradicionais como o têxtil (4,7%) e alimentício (4,3%) apresentaram expansão significativa.
Emprego em alta e desemprego em baixa
Santa Catarina mantém a menor taxa de desemprego do Brasil, com apenas 3% da força de trabalho desocupada. O estado criou 73,7 mil novos postos de trabalho entre janeiro e maio de 2025, com destaque para a construção civil, que sozinha gerou 11,5 mil vagas.
“Temos apenas 1% do território nacional, mas 5,5% dos empregos formais do país”, destaca o governador Jorginho Mello, ressaltando que algumas regiões do Oeste catarinense apresentam desemprego praticamente zero.
Exportações batem recordes e diversificam mercados
O complexo portuário catarinense vive momento histórico. O Porto de Imbituba, por exemplo, movimentou mais de 3,6 milhões de toneladas apenas no primeiro semestre, com crescimento de 5% no transporte de contêineres. As exportações de carne suína atingiram US$ 904,1 milhões, o melhor resultado da série histórica desde 1997.
A pauta exportadora demonstra a diversificação da economia: além das proteínas (frango e suíno), destacam-se geradores elétricos (US$ 302 milhões), madeira (US$ 248 milhões) e máquinas e equipamentos (US$ 250 milhões). Os produtos catarinenses chegam a mais de 200 destinos mundiais, com Estados Unidos, China e Argentina como principais parceiros comerciais.
Tecnologia e inovação como diferenciais competitivos
A transformação digital não é mais promessa, é realidade. A WEG anunciou investimentos de R$ 2,66 bilhões para 2025, focando em modernização e expansão. Empresas como a Duas Rodas economizam até R$ 40 milhões mensais com implementação de inteligência artificial, enquanto o estado sedia eventos de peso como a Intermach 2025, que cresceu 30% e se consolida como a maior feira metalmecânica de Santa Catarina.
O ecossistema de inovação floresce com iniciativas como o programa SC Mais Inovação, que estabeleceu 21 hubs regionais, e eventos como o Startup Summit 2025, que deve reunir 40 mil participantes em Florianópolis. A capital, aliás, reafirma sua vocação tecnológica sediando também o TDC Floripa, que reuniu 3,5 mil profissionais de tecnologia.
ESG e sustentabilidade: o novo paradigma industrial
A indústria catarinense lidera nacionalmente em práticas ESG. Empresas como BRF, WEG, ArcelorMittal e Hydro conquistaram certificações internacionais e assumiram compromissos ambiciosos de descarbonização. A ArcelorMittal Vega foi a primeira do Brasil a receber a certificação ResponsibleSteel, enquanto a Hydro comprometeu-se a reduzir 30% das emissões de CO2 até 2030.
O setor têxtil debate ativamente a economia circular, com empresas como Grupo EuroFios reciclando 13 mil toneladas de materiais anualmente e a Incofios reaproveitando 98% dos resíduos têxteis gerados. Esta transformação não é apenas uma tendência, mas uma exigência do mercado global que valoriza cada vez mais produtos sustentáveis.
Desafios no horizonte exigem atenção
Apesar do otimismo, o cenário para o segundo semestre de 2025 inspira cautela. A projeção de crescimento para o ano completo é de 1,73%, refletindo o impacto esperado da alta dos juros e da desaceleração do consumo. O dólar em torno de R$ 6,00 pressiona os custos de insumos importados, enquanto as incertezas sobre a política tarifária dos Estados Unidos preocupam exportadores.
A infraestrutura continua sendo um gargalo, especialmente na região Oeste, que convive com o maior custo logístico do estado: R$ 0,14 por real faturado, contra média estadual de R$ 0,11. O governo estadual responde com programas como o Estrada Boa, que prevê R$ 3,6 bilhões em investimentos rodoviários.
Perspectivas e oportunidades
O futuro da indústria catarinense será construído sobre quatro pilares fundamentais:
1. Diversificação de mercados: Com o câmbio favorável às exportações, empresas buscam novos destinos na América Latina e Ásia, reduzindo dependência dos mercados tradicionais.
2. Indústria 4.0: Programas como Smart Factory FINEP e Link Labs aceleram a transformação digital das pequenas e médias empresas, democratizando o acesso à tecnologia de ponta.
3. Sustentabilidade como vantagem competitiva: O mercado de créditos de carbono e as certificações ESG abrem portas para novos negócios e parcerias internacionais.
4. Capital humano qualificado: Com a menor taxa de desemprego do país e forte tradição industrial, Santa Catarina atrai talentos e investimentos que fortalecem o ecossistema produtivo.
O papel de Florianópolis no cenário industrial
A capital catarinense, tradicionalmente associada ao turismo e tecnologia, assume papel cada vez mais estratégico no desenvolvimento industrial do estado. Além de sediar a nova Secretaria de Portos, Aeroportos e Ferrovias, Florianópolis consolida-se como hub de eventos de inovação e negócios, atraindo investidores e empresários de todo o mundo.
O CentroSul tornou-se palco dos principais eventos empresariais, enquanto iniciativas como o Sapiens Parque e os diversos centros de inovação fortalecem a conexão entre academia, governo e setor produtivo. Esta sinergia é fundamental para manter Santa Catarina na vanguarda do desenvolvimento industrial brasileiro.
Dashboard interativo da Indústria Catarinense
Para ampliar e enriquecer o acesso aos dados da indústria catarinense apresentados nesta matéria exclusiva, o DeOlhoNaIlha estabeleceu parceria estratégica com a DashCity, startup de consciência territorial fundada por Dudu Gentil, que também é editor-fundador deste portal. A empresa desenvolveu o Observatório da Indústria SC, um dashboard que transforma a forma como acompanhamos e analisamos o setor industrial do estado.

Conclusão: otimismo com responsabilidade
A indústria de Santa Catarina demonstra notável resiliência e capacidade de adaptação, consolidando-se como uma das mais dinâmicas e competitivas do Brasil. Com crescimento de 7,7% em 2024, o setor superou amplamente a média nacional, evidenciando a força de sua estrutura produtiva diversificada e geograficamente distribuída.
Para 2025, embora as projeções indiquem crescimento mais moderado de 1,73%, as bases fundamentais permanecem sólidas. A combinação de setores tradicionais fortes, investimentos crescentes em inovação e tecnologia, e liderança em práticas de sustentabilidade ESG posicionam a indústria catarinense favoravelmente para enfrentar os desafios do cenário econômico atual.
O compromisso com a sustentabilidade, evidenciado pelas numerosas certificações e iniciativas de economia circular, não apenas atende às crescentes demandas do mercado global, mas também cria vantagens competitivas duradouras. A capacidade de gerar empregos de qualidade, com a menor taxa de desemprego do país, reforça o papel social fundamental da indústria no desenvolvimento estadual.
Os desafios impostos pelo cenário macroeconômico – alta de juros, pressão cambial e incertezas externas – exigirão capacidade de adaptação e gestão eficiente. No entanto, as oportunidades em setores resilientes como agronegócios e construção civil, combinadas com o potencial de crescimento via inovação tecnológica e expansão de mercados, oferecem caminhos promissores para o desenvolvimento continuado.
Santa Catarina possui todos os elementos necessários para manter e expandir sua posição de destaque no cenário industrial brasileiro: capital humano qualificado, infraestrutura em desenvolvimento, ambiente institucional favorável e, principalmente, um empresariado inovador e comprometido com o desenvolvimento sustentável.
O futuro da indústria catarinense será construído sobre os pilares da inovação, sustentabilidade e competitividade global, mantendo o estado como referência nacional em desenvolvimento industrial equilibrado e responsável. Com visão estratégica e ações coordenadas entre setor público e privado, Santa Catarina continuará escrevendo sua história de sucesso industrial, gerando prosperidade e qualidade de vida para toda sua população.
Fontes consultadas:
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Pesquisa Industrial Mensal
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)
- Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC)
- Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged)
- Governo do Estado de Santa Catarina
- Observatório FIESC
- Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa)
- Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)
- Empresas: WEG, BRF, Intermach
- Portos: Imbituba, São Francisco do Sul
- Centros de Inovação e Tecnologia






