Florianópolis, 28 fevereiro 2026
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A indústria da rua e o colapso moral das políticas públicas

OpiniãoA indústria da rua e o colapso moral das políticas públicas
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*Por Bruno Souza, mestre em Sociologia Política (UFSC). Foi secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis (SC), deputado estadual e vereador na capital catarinense.

Existe uma mentira confortável que sustenta toda a política pública brasileira para moradores de rua. A mentira de que estamos diante de um “problema social clássico”, composto majoritariamente por vítimas ocasionais da crise econômica, esperando apenas uma oportunidade, uma cesta básica e um abraço do Estado para retomarem suas vidas. Não estamos. A realidade é mais dura, mais feia e muito mais perigosa. E é justamente por isso que as políticas públicas fracassam de forma tão retumbante.

Qualquer agente de rua que trabalhe longe dos relatórios ideológicos sabe a verdade. A população de rua se divide, grosso modo, em dois grupos. Uma minoria real, algo em torno de 5%, é composta por pessoas que querem ajuda, que ainda mantêm vínculos familiares, que não romperam completamente com a vida social e que gostariam de sair da rua. Mesmo nesse grupo, a dependência química já é profunda, o que torna a recuperação rara, lenta e custosa.

O restante, a esmagadora maioria, vive em outra lógica. Não está na rua por falta de política pública. Está na rua porque a rua virou o ambiente funcional para sustentar o vício, o crime e a desagregação completa. Ali se furta, se trafica, se recebe esmola, se consome droga e se constrói uma economia paralela protegida por um manto ideológico que chama tudo isso de “vulnerabilidade”.

Este não é um debate abstrato. É a fotografia atual de Florianópolis e de diversas cidades de Santa Catarina. Florianópolis, em especial, tornou-se a cidade do Sul do Brasil com maior número de moradores de rua per capita, um recorde silencioso que escancara o fracasso completo do modelo adotado nos últimos anos.

Theodore Dalrymple, psiquiatra britânico que trabalhou por mais de duas décadas em prisões e hospitais públicos atendendo a população mais pobre e marginalizada, descreve com precisão esse fenômeno em “Vida na Sarjeta”. Ao observar que “o Estado de bem-estar não falhou por não oferecer o suficiente, mas por ter oferecido demais sem exigir nada em troca”, ele mostra como o poder público deixou de tratar comportamentos autodestrutivos como desvios a serem corrigidos e passou a tratá-los como identidades a serem protegidas. Ao romantizar a decadência, o Estado deixa de ser agente civilizador e passa a ser curador de ruínas humanas, administrando a miséria em vez de enfrentá-la.

É exatamente isso que fazemos. Camas, cobertores, tendas, marmitas, cachimbos “seguros”, salas de uso assistido, atendimento sem exigência de contrapartida. Todo o desenho das políticas públicas parte de uma ficção. A de que o morador de rua quer sair da rua. Ele não quer. E quando quer, já não consegue. Resultado: construímos um sistema inteiro voltado aos 5%, que quase nunca se recuperam, e com isso sustentamos, estabilizamos e ampliamos os 95% que transformaram a rua em modo de vida. O Estado financia, legitima e organiza a permanência no vício, no crime e na degradação.

Cidades que ampliaram esse modelo colhem exatamente o que semearam. Aumento de furtos, degradação urbana, violência, fechamento de comércios, fuga de moradores, queda de arrecadação e um ciclo perverso que alimenta mais pobreza, mais abandono e mais dependência do próprio Estado.

Dalrymple também registra que “quando uma sociedade abandona a ideia de responsabilidade pessoal, ela não produz compaixão, ela produz barbárie administrada”. Ao retirar qualquer exigência de disciplina, tratamento, abstinência, internação involuntária quando necessária e responsabilização, o poder público não salva ninguém. Apenas organiza a ruína.

O discurso é sempre o mesmo. “Não podemos obrigar”. “Não podemos constranger”. “Não podemos interferir”. Mas podemos financiar. Podemos sustentar. Podemos estabilizar. Podemos criar verdadeiros ecossistemas de degradação mantidos por recursos públicos. É o triunfo da política que parece bonita no relatório e desastrosa na realidade. Enquanto fingirmos que o problema é falta de acolhimento, continuaremos produzindo mais rua, mais vício, mais crime e mais colapso urbano. O que falta não é afeto estatal. O que falta é coragem política para admitir que o problema central não é social. É moral, comportamental e civilizacional.

Sem romper esse tabu, continuaremos investindo milhões para salvar quase ninguém, enquanto alimentamos um sistema que destrói cidades inteiras.

Mais sobre Bruno Souza:

Bruno Souza foi deputado estadual em Santa Catarina, vereador, secretário municipal de Florianópolis e hoje é uma das vozes mais influentes e polêmicas sobre segurança pública, drogas, população em situação de rua, gasto público e liberdade econômica.

Eu seu perfil do Instagram, muitos vídeos em que confronta problemas reais das cidades, mostra fiscalizações, questiona permissividade com usuários de drogas e critica abertamente políticas que têm levado ao caos urbano em várias capitais.

Como secretário de Assistência Social defendeu uma nova abordagem para pessoas em situação de rua, baseada em responsabilização, encaminhamento, reinserção e combate à permissividade institucional.

Sua experiência no cargo motivou a produção de “A Incrível Fábrica de Moradores de Rua”, livro que está escrevendo, já em fase final de edição, e onde está reunindo análises, dados nacionais e vivências da gestão para propor uma revisão profunda das políticas públicas vigentes.