Hábito inocente de coçar os olhos pode deformar a córnea de jovens predispostos ao Ceratocone

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Apesar de Santa Catarina ser referência nacional no combate à fila, o desconhecimento da população ainda barra o diagnóstico precoce

Um gesto simples, repetitivo e que quase todo mundo faz sem pensar: coçar os olhos. O que poucos sabem é que este hábito, intensificado pelas crises alérgicas decorrentes das mudanças climáticas e da poluição urbana, é o principal gatilho para o desenvolvimento e agravamento do Ceratocone – doença crônica e progressiva que deforma a córnea, afinando-a e transformando-a em formato de cone, o que causa distorções severas na visão e pode levar à cegueira funcional.

O oftalmologista e diretor técnico do Hospital de Olhos de Florianópolis (HOF), Ernani Garcia, alerta para a gravidade do problema. “Existe uma falsa percepção de que levar a mão aos olhos de forma constante é apenas um tique ou um alívio inocente para a coceira. Na verdade, o trauma mecânico contínuo fragiliza a estrutura da córnea. Em pacientes jovens, cujos tecidos ainda estão em desenvolvimento, esse hábito acelera drasticamente a deformação ocular, transformando um quadro que poderia ser controlado em uma urgência cirúrgica”, explica o especialista.

O paradoxo de Santa Catarina: eficiência na fila X diagnóstico tardio

Em Santa Catarina, o panorama ganha contornos específicos. Por um lado, o estado se consolidou como uma das maiores referências em eficiência cirúrgica do país. Enquanto a média nacional de espera por um transplante de córnea ultrapassa os 369 dias – chegando a passar de 1.000 dias em alguns estados -, Santa Catarina está no segundo melhor desempenho do Brasil, com um tempo médio de espera de apenas 164 dias, ficando atrás somente do Ceará (58 dias), segundo levantamento nacional publicado no Estadão.

Apesar da agilidade no atendimento de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS) catarinense, os médicos oftalmologistas alertam para uma barreira invisível: o desconhecimento. Um estudo transversal publicado no Brazilian Journal of Ophthalmology revelou que quase metade da população nacional (45,8%) não faz ideia do que é o ceratocone. Isso faz com que os primeiros sinais sejam negligenciados ou confundidos com astigmatismo comum.

“Santa Catarina faz um trabalho brilhante no gerenciamento das filas de transplante, mas o nosso grande desafio atual está na outra ponta: fazer o paciente chegar ao consultório antes de precisar de uma córnea nova”, pontua o Dr. Ernani. “A falta de informação faz com que muitos jovens enfrentem dificuldades nos estudos ou no trabalho acreditando que precisam apenas trocar o grau dos óculos, quando na verdade a estrutura do olho está falhando silenciosamente”. 

Sintomas, sinais de alerta e como surge

Sendo mais comum em jovens, especialmente entre 10 e 25 anos, também é frequente em pessoas com síndrome de Down ou com alterações oculares congênitas. A combinação de uma predisposição genética à flacidez do tecido corneano com o ato contínuo de esfregar os olhos deforma a estrutura ocular. Os sintomas mais comuns são:

  • Mudança frequente e rápida no grau dos óculos (principalmente aumento do astigmatismo);
  • Visão borrada, duplicada ou com “fantasmas” ao redor de luzes;
  • Alta sensibilidade à luz (fotofobia) e halos noturnos;
  • Coceira ocular intensa e constante, associada a quadros de rinite, sinusite ou asma.

A importância do diagnóstico precoce e tratamentos modernos

Se diagnosticado no início através de exames simples de imagem como a topografia ou tomografia de córnea, o ceratocone pode ser freado. O procedimento chamado Cross-linking (que utiliza riboflavina e luz ultravioleta para enrijecer o colágeno da córnea) evita que a doença progrida em até 90% dos casos, eliminando a futura necessidade de um transplante. Para a correção da visão, lentes de contato especiais rígidas ou esclerais oferecem excelente reabilitação visual aos pacientes sem necessidade de cirurgias invasivas.

O diretor técnico do Hospital de Olhos de Florianópolis reforça que a tecnologia é a maior aliada da visão nesta fase. “Hoje dispomos de técnicas fantásticas como o Cross-linking, que funciona como um ‘reforço’ na estrutura ocular, além de lentes esclerais que devolvem a nitidez e a qualidade de vida ao paciente sem que ele precise entrar em um centro cirúrgico para transplante. O segredo do sucesso é um só: diagnosticar cedo. Por isso, ao menor sinal de coceira constante ou perda de foco, a consulta com o especialista não pode ser adiada”, finaliza o Dr. Ernani Garcia.Foto Dr.: Malu Sousa | Scarduelli Comunicação