Mudar de carreira na maturidade é uma realidade para profissionais que buscam novos desafios, mais autonomia e a oportunidade de realizar sonhos adiados ao longo da vida. De acordo com o Relatório Workforce, elaborado pela consultoria Korn Ferry em 2025, 58% dos brasileiros entre 40 e 50 anos pretendem se engajar em uma transição de carreira, percentual superior à média mundial, de 47%.
Outro levantamento, realizado em 2024 pela NOZ Inteligência em parceria com a Maturi, startup dedicada a fomentar oportunidades profissionais para pessoas com mais de 50 anos, mostra que 70% das mulheres entre 43 e 82 anos já realizaram uma transição profissional ou consideram fazê-la. Entre os homens da mesma faixa etária, o índice é de 65,3%.
A pesquisa também revela que a flexibilidade é um dos principais fatores que motivam as mulheres a buscar novos caminhos. Entre as entrevistadas, 55,2% desejam atuar como consultoras, autônomas ou freelancers, enquanto 38,2% pretendem abrir o próprio negócio.
Autoconhecimento e novas prioridades
Para Débora Andrade, psicóloga e responsável pelo Programa de Orientação de Carreiras na Wyden, a transição profissional nessa fase da vida está relacionada não apenas à busca por novas oportunidades, mas também a um processo de autoconhecimento e revisão das prioridades.
“Dentro da minha vivência, vejo esse cenário sendo movido por um alinhamento interno, pelo autoconhecimento e por novas motivações em relação ao trabalho. Muitas mulheres começaram suas carreiras por necessidade, pelas oportunidades que surgiram ou pelo retorno financeiro que determinada profissão oferecia naquele momento. Também há influências externas, como a família, o cônjuge e a própria sociedade. Aos 40 anos, essas mulheres já acumularam uma vasta experiência, e o autoconhecimento e o amadurecimento passam a ter um peso maior em suas decisões”, explica Débora.
Alinne Ovelar, responsável pela área de Orientação de Carreiras no Ibmec Brasília, destaca que a mudança nessa etapa não deve ser vista como um apagamento da experiência anterior, mas como uma oportunidade de aproveitar os conhecimentos adquiridos. Ela também chama a atenção para fatores estruturais, como o etarismo e as barreiras à ascensão profissional feminina.
“Esse movimento representa a ressignificação de suas trajetórias profissionais, e não um recomeço do zero. A motivação pode surgir do desejo de alcançar maior autonomia, flexibilidade e alinhamento com o próprio propósito, mas também pode estar relacionada a uma resposta às experiências de etarismo ou às barreiras que ainda limitam a ascensão profissional das mulheres”, afirma Alinne.
Do comércio exterior ao Direito aos 54 anos
É nesse contexto que se insere a história de Fátima Ferraz Faceira, de 54 anos. Após mais de duas décadas de experiência na área de comércio exterior, ela decidiu retomar um antigo sonho: cursar Direito. Atualmente, está no primeiro período da graduação na Estácio e planeja concluir o curso nos próximos cinco anos.
Formada inicialmente em Comunicação Social, Fátima construiu sua trajetória como especialista em importação e exportação e fez MBA em Comércio e Finanças Internacionais. Após o MBA e o nascimento da filha, chegou a cursar dois períodos de Direito, mas precisou interromper os estudos diante das demandas da vida profissional e da maternidade.
“Após os 50 anos, precisamos rever nossas metas e reorganizar nossa rota. No meu caso, cursar Direito é a realização de um sonho antigo, que precisou ser adiado em função das responsabilidades profissionais e maternas, mas que agora decidi retomar. Acredito que a experiência que acumulamos ao longo da vida, tanto profissional quanto pessoal, torna essa nova escolha ainda mais enriquecedora”, afirma Fátima.
A decisão também tem um objetivo profissional: unir os conhecimentos de mais de 20 anos no comércio exterior à formação jurídica, com possibilidades de atuação em Direito Internacional e Direito Aduaneiro.
“Minha dica para quem pensa em mudar de carreira após os 50 anos é não se deixar limitar pelo etarismo, nem mesmo pelo autoetarismo, que é quando nós próprios impomos barreiras em razão da idade. É preciso ter coragem para perseguir nossos objetivos, humildade para aprender com pessoas de diferentes gerações e confiança de que sempre é possível construir novos caminhos”, destaca.
Orientação de carreira ainda na graduação
A preocupação com a carreira também aparece antes da formatura. O Instituto de Educação Médica (IDOMED) mantém o IDOMED Carreiras, área dedicada à orientação profissional de estudantes de medicina e odontologia, com atendimentos individuais conduzidos por psicólogas, o evento online Terça com Carreiras, sobre temas ligados a soft skills e às demandas do mercado, e o Career Day, que conecta estudantes a grandes empresas e profissionais do setor.



