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sábado, novembro 27, 2021
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Renda de Bilro de Florianópolis ganha destaque no Rio de Janeiro

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Renda de Bilro de Florianópolis ganha destaque no Rio de Janeiro

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Um grupo de 20 rendeiras participa nesta quinta-feira (27/10), às 17h, da abertura de uma exposição exclusiva na Sala do Artista Popular (SAP), do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro. Na vitrine, o destaque será a “Renda de Bilro de Florianópolis” tramada em toalhas, blusas, colchas e outras peças artesanais que serão apresentadas ao público até 27 de novembro. O evento é resultado da parceria entre a Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes (FCFFC), Casa dos Açores Ilha de Santa Catarina e Ministério da Cultura (MinC), por meio do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Junto com a exposição, divulgação e venda dos produtos será também lançado um catálogo etnográfico sobre o trabalho das artesãs da capital catarinense. Contendo fotos e textos inéditos, com depoimentos de rendeiras de várias comunidades do município, o livro traz o registro do processo de produção deste artesanato tradicional enraizado na cultura local há mais de dois séculos. A última publicação do gênero, em 1986, foi o livro “Rendas da Ilha de Santa Catarina”, lançado durante exposição promovida pela Fundação Nacional de Artes/Funarte, em Curitiba (PR).

A Sala do Artista Popular é um espaço para exposições, voltado à difusão e comercialização da produção de artistas e comunidades artesanais. Precedidas de pesquisa de campo e documentação fotográfica, todas as mostras são abertas à visitação pública e contam com edição de catálogo etnográfico, propiciando oportunidades de expansão de mercado, valorização do artesanato e comercialização da produção. Criada em 1983, a SAP realiza em média nove exposições por ano, definidas mediante seleção de propostas recebidas pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro.

Mapeamento cultural

O trabalho de pesquisa e registro da atividade das rendeiras que será divulgado na SAP foi realizado em 2010, pela pesquisadora Maria Armênia Müller Wendhausen e pelo artista plástico e fotógrafo Jone Cezar de Araújo, integrantes da Casa dos Açores Ilha de Santa Catarina (Caisc). O mapeamento faz parte do processo de implantação do Centro de Referência da Renda de Bilro de Florianópolis (Casarão das Rendeiras), que está vinculado ao Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural – Promoart, desenvolvido pelo MinC, em parceria com a Fundação Franklin Cascaes e Caisc.

Durante quatro meses, Mena Wendhausen e Jone Araújo visitaram comunidades na Ilha e região continental para conhecer o cotidiano das artesãs que mantêm uma tradição passada de mãe para filha desde que os primeiros açorianos chegaram à Ilha de Santa Catarina, em 1748.

A dupla acompanhou a coleta da matéria-prima que garante a produção artesanal e registrou o processo de recorte e conservação dos piques (moldes de papelão que dão formato à renda). Acompanhou também a escolha do tecido para confecção das almofadas, além da construção dos caixotes que dão suporte para toda a estrutura de produção da renda de bilro. “A experiência foi emocionante. Em muitos momentos a gente desabou a chorar”, confessa Mena.

A pesquisa permitiu ainda conhecer as cantorias, crenças e histórias de vida de mulheres e homens entrelaçados pelas tramas da tradição. Neste caso, eles exercem um papel fundamental na manutenção da atividade artesanal, seja construindo os caixotes, coletando a madeira ou torneando os bilros que prendem os fios de linha. “Os homens participam muito e alguns até ajudam na confecção da almofada, mas o feitio da renda continua sendo uma atividade das mulheres” comenta Jone Araújo.

Ao todo, foram feitas 80 entrevistas e a partir delas, por indicação das artesãs, surgiram outros nomes de rendeiras, levando os pesquisadores a estimar a existência de pelo menos 300 mulheres ainda exercendo o ofício no município – a grande maioria delas descende de açorianos e tem pescadores na família, o que confirma o ditado que diz que “onde há rede, há renda”.

A quantidade de material coletada na pesquisa é tanta que já está previsto o lançamento de um livro sobre as rendeiras de Florianópolis, complementando as informações divulgadas no catálogo e inserindo um ingrediente mais humano, agregado a novas imagens sobre essa tradição. A obra deve ser lançada no primeiro semestre de 2011, com o selo da Fundação Franklin Cascaes Publicações.

Onde há rede, há renda

Não se sabe ao certo a origem da renda de bilro. Alguns pesquisadores defendem que o artesanato surgiu em Flandres, na Bélgica, no século 15, de onde se espalhou pela Europa, em especial Itália e França, chegando depois a Portugal e ao arquipélago dos Açores. Os portugueses trouxeram a arte da renda para o Brasil nos trajes da igreja e vestuário da nobreza.

Na Ilha de Santa Catarina, a renda de bilro surgiu por influência dos açorianos. Os primeiros imigrantes (473 pessoas) partiram do porto de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, rumo ao Brasil, em 21 de outubro de 1747, chegando ao destino em 6 de janeiro de 1748. Em homenagem a esses antepassados e suas tradições a Lei nº 8030/2009 instituiu a data de 21 de outubro como Dia Municipal da Rendeira, atendendo à proposição do vereador Edinon Manoel da Rosa (PMDB), o Dinho.

Para sobreviver já naquela época, os homens passavam longos períodos na atividade pesqueira em alto-mar, enquanto as mulheres ocupavam o tempo livre tecendo fios em almofadas de bilro. As rendas produzidas eram vendidas no mercado da cidade ou trocadas por produtos de necessidade básica para reforçar o orçamento familiar, numa tradição cultural que atravessou gerações, originando o ditado popular “onde há rede, há renda”.

Entre as rendas de bilro mais conhecidas, feitas no município, estão a “Maria Morena” e a “Tramoia”, ou renda dos sete pares, considerada um produto típico de Santa Catarina. Para preservar a atividade e promover a troca de conhecimento entre as artesãs, a Fundação Franklin Cascaes mantém um núcleo de oficinas de renda no Centro Cultural Bento Silvério, na Lagoa da Conceição, desde a década de 1990, espaço que está abrigando o Centro de Referência da Renda de Bilro de Florianópolis.

Serviço:

O Quê: Exposição “Renda de Bilro de Florianópolis”

Quando: quinta-feira (27/10) – 17h
Visitação até 27 de novembro

Onde: Sala do Artista Popular
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
Rua do Catete nº 179 – Rio de Janeiro (RJ)

Quanto: gratuito

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