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sábado, janeiro 22, 2022
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Escultura do boitatá ajuda a revitalizar campus da UFSC

Escultura do boitatá ajuda a revitalizar campus da UFSC

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Dois pés enormes invadiram o lago entre o Centro de Cultura e Eventos e o Centro de Convivência da UFSC. Eles sustentam um ser de 13 metros de altura, de aparência esquelética mesmo pesando quase duas toneladas, e envolto por serpentes. No rosto, um único olho, vermelho, incandescente. O estranho ser, batizado Boitatá, habita o território do imaginário popular, onde desperta medo, atiça a curiosidade e a criatividade, e agora se materializou às margens do lago em escultura do artista plástico Laércio Luiz. A inauguração da obra e da nova praça onde está situada, marcada para o dia 25 de março, às 17h, faz parte das comemorações dos 50 anos da UFSC.

Para dar dignidade à obra “Boitatá Incandescente”, ela foi integrada a um projeto mais amplo voltado para a revitalização do local. No extremo oposto à escultura, ao lado do Centro de Convivência, foi construído um deck que conduz a uma bancada com onde aparece uma mandala. Esta é uma homenagem à passagem dos 100 anos de nascimento do professor Franklin Cascaes, historiador responsável pelo registro de mitos e da cultura popular de Florianópolis e municípios vizinhos, inclusive a lenda do boitatá.

Conforme o professor César Floriano dos Santos, doutor em Teoria da Arquitetura pela Escola Superior de Arquitetura de Madri, a obra feita com ferros em forma de I e U, provenientes da ponte Hercílio Luz, tornou-se de difícil inserção por sua característica vazada e temática. Isso exigiu obras complementares, o deck, a bancada para a mandala e a nova vegetação, compondo a decoração de uma praça de estar com mesas e cadeiras em redor do lago.

Com o novo layout, os contornos do lago passam a ser habitados por bromélias. A escolha considerou, além do aspecto estético, a questão da segurança, para evitar quedas no lago, que tem 1m15 de profundidade.

No meio das águas, uma distinção à habilidade humana, uma ilha construída com pedras que receberá bonsais. Já para os pés do “Boitatá Incandescente”, a sustentação visual é de vitórias-régias e outras plantas aquáticas. Além disso, carpas vermelhas vão habitar o lago, e com elas voltam as garças. Também não há como deixar de registrar a presença de um casal de patos e seis filhotes que algum artista anônimo colocou no lago. O sereno deslizar das aves pelas águas complementa a beleza do local.

Esguichos de água próximos ao deck e um caminho sensitivo para pessoas portadoras de deficiências físicas também integram o novo visual do lago.

O projeto conecta o tema popular aos avanços tecnológicos através de um painel de LED no olho do boitatá e de câmaras na cabeça ligadas na web da universidade. Voltadas para a mandala, as câmaras permitem a transmissão de imagens para o mundo.

Quando foi apresentado ao Funcultural, do governo do Estado, o projeto “Boitatá na Ilha da Magia”, referente apenas à escultura, estava orçado em R$ 126 mil. Estes recursos vieram de fundos culturais com patrocínios da Unimed, Zincarápido, Dominik, Metal Arte e Casas da Água. O projeto de paisagismo complementar à obra foi patrocinado pela UFSC, com investimentos de R$171.904,00.

Expressão do artista – Artista plástico visual catarinense, pesquisador de pigmentos naturais, pintor, escultor, carnavalesco e folclorista, Laércio Luiz participou de exposições no Brasil e no exterior, onde conquistou vários prêmios e menções honrosas.

Durante a infância sonhava levar para casa algumas barras de ferro da ponte Hercílio Luz e dar a elas uma forma artística. Imaginava que a ponte viesse a deixar de ser usada, ou talvez caísse. Nem uma coisa e nem outra aconteceu. Mas o projeto de reutilização da ponte para dar vazão ao congestionado trânsito da Ilha de Santa Catarina fez seu sonho virar realidade. Devido a reformas na velha estrutura, algumas vigas deixaram de ser necessárias. Laércio solicitou as peças ao Departamento Estadual de Infra-Estrutura (Deinfra) e conseguiu seis barras em forma de I e outras seis barras em forma de U.

O problema agora era onde guardar as peças. A solução veio fácil. Com o apoio de um amigo, conseguiu um galpão para trabalhar a obra no bairro Córrego Grande, próximo ao seu atelier.

Irreverente, Laércio não pode reclamar dos amigos. Para entortar as pernas e dar movimento ao boitatá, contou novamente com a força de dez deles. Mas o tamanho gigantesco da obra exigia exatidão de cálculos para determinar fatores como o ponto de equilíbrio, por exemplo. Hora de apelar para a ciência. As equipes dos professores Moacir Carqueja, do Departamento de Engenharia Civil, e Orestes Alarcon, do Departamento de Engenharia Mecânica, usaram seus conhecimentos para garantir a segurança e sustentação exata da obra monumental.

Dez anos de gestação – Após dez anos no papel, o projeto da escultura do boitatá foi avaliado e aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura de Santa Catarina. O Conselho determinou que a obra fosse instalada em um lugar singular e inusitado, preferencialmente visitado como um espaço multiuso.

Depositário das pesquisas e obras de Franklin Cascaes, este lugar singular só poderia ser a UFSC, em Florianópolis. Conforme Laércio, apesar da identidade própria de sua arte, ele estudou o matiz grafite usado na escultura para obter forma semelhante ao usado por Cascaes. João Evangelista de Andrade Filho, administrador do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc), endossou com propriedade esta afinidade quando, ao observar a maquete do projeto, afirmou: “…a peça, pelo que me foi dado apreciar, guarda um vínculo de linguagem com a obra gráfica de Cascaes, o que a torna particularmente interessante…”

“Homenageando Franklin Cascaes e sua obra eu reconheço os sonhos de minha própria infância, que continuam presentes em minha fase adulta. Então recrio um boitatá e compreendo os medos que ainda me afligem, sempre relacionados com minha íntima ligação com o meio ambiente, a não preservação e o descaso com o que é considerado em desuso nas cidades”, comenta Laércio. Ele projeta seu ideal: “Por isso, mostro que a escultura faz um paralelo com o processo de verticalização da vida contemporânea ao projetá-la com 15 metros de altura. E assim proponho a reflexão sobre a importância das horizontalidades nas relações sociais, quando os seres humanos poderão se aproximar mais de seus iguais e rever seus valores internos”.

Outras informações sobre a obra são obtidas com o artista, no telefone (48) 9607-6890.

Por Mara Paiva / Jornalista na Agecom
Fotos: Cláudia Reis/ Jornalista na Agecom

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