Exposição que ocupará o prédio histórico que foi moradia do artista catarinense preferido de Dom Pedro 2º ressignifica o legado dos oito idealizadores da associação criada há 50 anos
“Movências: Ressignificação dos Oito Fundadores da Acap: Eli Heil, Franklin Cascaes, Martinho de Haro, Max Moura, Ernesto Meyer Filho, Pedro Paulo Vecchietti, Rodrigo de Haro e Vera Sabino” é o nome da quinta exposição das seis programadas para esse ano promovida pela Acap (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos) em comemoração aos seus 50 anos. A coletiva, que reunirá criações de 22 associados, estreia na quarta-feira que vem, dia 19, às 19h, no Museu Victor Meirelles, em Florianópolis.
O espaço não poderia ser mais significativo para a arte catarinense neste momento festivo. Afinal, o museu, vinculado ao Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), do Ministério da Cultura, está instalado desde 1952 na casa onde o artista nasceu, tombada como patrimônio histórico e artístico nacional. O pintor manezinho é reconhecido como um dos mais importantes pintores do romantismo nacional e autor de uma das mais populares telas brasileiras, a “Primeira Missa no Brasil”.
E o museu, um espaço cultural de abordagem contemporânea, recebe agora um grupo de artistas que transita entre a arte moderna e contemporânea. Seguindo a ideia de homenagear o grupo que idealizou a Acap e a fundou em 1975, os associados criaram obras em que ressignificam o legado deixado por cada um dos fundadores, todos nomes de grande sucesso e que projetaram Santa Catarina no cenário nacional e internacional. Enquanto se inspiram neles, também imprimem sua marca e se mantêm unidos e dispostos a dar continuidade à história de meio século da entidade.
O Olimpo da Ilha em aquarela
A celebrada Vera Sabino, 77 anos, única fundadora viva e em plena fase criativa, inspirou a aquarelista Gabriela Luft a criar “O Monte Olimpo da Ilha”. “Do diálogo entre a obra de Vera e minha pesquisa em aquarela, ressignifico o universo simbólico e colorido, transportando-o para um território mítico onde a antiga Desterro (atual Florianópolis) torna-se cenário”, explica Gabriela. A criação traz um panteão de 12 deusas que habitam a cidade — cada uma guardiã de um aspecto da alma da Ilha, no qual o Morro da Cruz ergue-se como o Olimpo.
Roberta Viotti também busca traços de Vera no mundo submerso em “Freguesia dos Peixes Manezinhos”. “Não tem só peixe não, tem bruxinha de cabelo cobra que mergulha só pra dar uma volta no Gordinho, já que a Sardinha anda de regime e não aparece mais na festa; tem sereia com complexo de Bela Adormecida e Olho de Peixe na segurança do festerê, onde não é permitida a entrada de humanos Xereletes, oops, xeretas”, sintetiza.
E por fim, fora da temporada, com as águas ainda transparentes e cheirosas, aparece a rainha Tainha, com sua beleza perolada. “Como sempre gostei de desenhar e pintar peixes, trouxe a bruxaria pro fundo do mar!”, conta Roberta.
O universo bruxólico de Franklin Cascaes
O universo bruxólico, também explorado pelo mestre Franklin Cascaes, inspirou Gavina a criar “Encarnação – Estudo para Alegoria”, que revisita as criaturas míticas. Boitatás, curupiras e outras presenças da mata surgem como guardiões da terra e do fogo, insurgindo-se contra a violência.
Almir Reis também apostou em Cascaes em “Mil e Uma Maravilhas Deus Criou Nesta Ilha”. Para ele, Cascaes descreveu e documentou como ninguém a cultura da Ilha a partir da imigração açoriana do século 18, com práticas ainda presentes em todo o litoral catarinense em atividades cotidianas e rituais.
E encontrou na pesca da tainha, objeto da primeira crônica publicada por Cascaes em 13 de junho de 1956, descrevendo a atividade no Pântano do Sul, o cenário perfeito reproduzido em aquarela, grafite, água do mar e com muita liberdade poética. No rigoroso inverno de 2025, pescadores, moradores e turistas são registrados repetindo, mais uma vez, o fantástico ritual.
Eli Heil exalta a vida e as criaturas possíveis
Também fundadora da Acap, Eli Heil surge na releitura de Lilia, que mergulhou nos poemas da artista para criar “Matrizes da Criação”. “Escolhi pintar a Árvore da Vida, com seus galhos em direção ao céu, buscando luz e sentido, e o Mundo Ovo de Eli, um útero cósmico onde brotam criaturas e mundos possíveis. Neste trabalho apresento ambos e o questionamento, de onde viemos e para onde vamos?”, relata Lilia.
A lenda esquecida resgatada por Ricardo Rosário
Ricardo Rosário optou por homenagear três artistas, em uma espécie de trilogia: Meyer Filho, Pedro Paulo Vecchietti e Rodrigo de Haro. A “Coruja Cósmica X”, apresentada na exposição do BRDE, ressurge. “Juntei os três para contar uma lenda deste ser que veio do espaço (releitura de Meyer), adicionando uma simbologia relacionada às estrelas (Vecchietti) e, por fim, mostrando Florianópolis (Rodrigo de Haro).
A “Coruja…” resgata lenda sobre um ser que veio do espaço e transmutou-se na forma de coruja, para conviver com os outros animais. Porém, não conseguia respirar e foi obrigada a usar seu capacete cósmico, escondendo-se nas florestas da Ilha. A última pessoa que a viu teria enlouquecido e se jogado da Pedra do Frade, na Lagoa da Conceição. Desde então, ficou conhecida por trazer mal agouro para quem a avista.
“Simbologia Cósmica 1 – A Coruja” estuda uma civilização pré-humana, onde são analisadas as posições das estrelas e fenômenos cosmológicos, fazendo menção a um período obscuro, com guerras entre povos que foram amigos. “A Terra entra em colapso, aparecem falsos profetas e muitas pragas, causando incontáveis mortes. A pintura a óleo representa esta simbologia, onde não temos nenhum tipo de resquício pré-humanidade (Vecchietti).”
Por último, “Avistamento” se volta às lendas da Ilha e ao ser que, se visto em uma noite em que o alinhamento cósmico está apontando para a constelação da Coruja, faz o vidente enlouquecer. Dizem que o céu ficou com uma cor diferente naquela noite que ele se jogou (Rodrigo).
PRÓXIMAS EXPOSIÇÕES DA ACAP
Mesc (Museu da Escola Catarinense)
“Coletoras: Ressignificação de Eli Heil e Vera Sabino”
Quando: de 5/12/2025 a 31/1/2026
MArquE (Museu de Arqueologia e Etnologia) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina)
Além das seis exposições de 2025, a curadora Meg Tomio Roussenq assinará em 2026 coletiva exaltando Franklin Cascaes, no espaço que guarda o acervo do artista
Quando: 3/3/2026
Para acompanhar a Acap:
Site: https://www.acap-art-sc.com/
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Youtube: @acap-associacaocatarinense7031






