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sábado, maio 25, 2024
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ÓPERA-ROCK FRANKENSTEIN, espetáculo digno de uma turnê pelos grandes teatros brasileiros

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ÓPERA-ROCK FRANKENSTEIN, espetáculo digno de uma turnê pelos grandes teatros brasileiros

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Texto de Priscylla Campos
Graduada em Letras Vernáculas e Dra em Literatura e Cultura. É professora de Língua Portuguesa e autora do Suplemento do Manual de Redação Ofical do Estado de Santa Catarina.

Buscar a fonte de uma obra é uma tarefa tanto complexa quanto inútil. Complexa porque inútil, inclusive. O processo de escrita envolve uma série de estratégias em que são ativados conhecimentos e leituras em diversas áreas – e sobre inúmeros assuntos. É inútil, portanto, revelar per si os mais ocultos segredos que um grande escritor tece, fio a fio, ao costurar sua obra. Parece, então, mais produtivo, conferir novos sentidos a uma releitura em que criatura e criador se confundem, fazem parte, de maneira intrínseca, do mesmo processo. A releitura é tão profunda quanto a escrita mater do primeiro texto. É exatamente isso que acontece com o excelente texto de Alberto Heller que, nascido argentino, veio tão jovem ao Brasil e construiu sua carreira como musicista, compositor, filósofo. Enfim, um grande estudioso do pensamento humano e suas interfaces com a arte, a música, a psicoterapia, dentre outros.

A excelente ópera Franskestein evidencia todos esses aspectos do processo criativo do compositor. São interconexões diversas que confluem para um ponto comum: a primeira obra de ficção científica da literatura ocidental, título homônimo, de Mary Shelley, publicada em 1818. Niilista, em grande medida, a ópera é porosa justamente pela possibilidade de diálogo com pensadores das mais variadas linhas e épocas. Surpreende quando, depois de citar expressamente uma frase emblemática de Nietzsche, o argentino Borges é mencionado. E as citações são muitas. O mais atraente, no entanto, não é apenas a menção que se faz a esses autores e suas obras, mas o entrecruzamento de discursos que os personagens, em suas reflexões, conseguem elaborar. As vozes de toda essa tradição filosófica parecem ecoar no pensamento de cada um deles, o que evidencia a complexidade – e o cuidado – com que Heller trata todas essas questões.

Não haveria outra forma de ressignificar este texto clássico senão por meio desses diálogos tão profundos. A música, tão bem executada pela Camerata Florianópolis, conecta-se ao texto de tal maneira que a Spalla, Iva Giracca, é aquela que tira os atores para dançar, no tão aguardado casamento entre Victor Frankestein e Elisabeth Lavenza. Mas sobre as partituras, pouco é o meu conhecimento. O que aqui acrescento é a sensação de estar vivendo cada uma daquelas cenas. Uma experiência artística que apenas óperas executadas por uma orquestra conseguem provocar em um espectador.

Há que se acrescentar a refinadíssima produção da peça, cuja concretização mobilizou mais de uma centena de profissionais. O efeito causado no público é impactante. Na avaliação do agitador cultural Sílvio Satto, uma ópera digna de uma turnê nacional nos grandes teatros brasileiros. Opinião que endosso.

A cenografia, como que calculada milimetricamente para o palco do CIC, amalgama-se aos componentes da orquestra. A iluminação do barco e da escada, em cenas distintas, reforçam essa percepção.

Diante de tantos efeitos, o figurino e a maquiagem poderiam ter sido minimamente negligenciados. Mas não foi o que aconteceu. No momento em que aparece, pela primeira vez, a criatura, ainda coberta por um lençol, percebe-se, na rigidez e palidez do recém-criado, a importância que foi dada à forma, tanto quanto ao conteúdo.

Para além das expectativas dos presentes, a ópera Frankestein provoca, no público, sobretudo nos catarinenses, a grata satisfação de receber uma obra tão qualificada em suas terras. Frise-se, também, os patrocínios e a importância do Programa de Incentivo à Cultura (PIC), que tantas experiências artísticas e culturais têm proporcionado em todo o estado de Santa Catarina.

À produção de Maria Elita e à regência do grande maestro Jeferson Della Rocca restam os aplausos do público, símbolo maior do reconhecimento e da constatação de que o amor à arte pode sim promover grandes mudanças em nossa sociedade.

Foto: Tóia Oliveira, com Dr. Frankenstein e a Criatura no mesmo enquadramento

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