Pressão por escala leva indústrias a automatizar rotinas próximas da receita

NegóciosPressão por escala leva indústrias a automatizar rotinas próximas da receita

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Com o aumento de pedidos, clientes e dados processados diariamente, empresas transferem para agentes inteligentes tarefas como atualização de sistemas, consultas de estoque e acompanhamento de carteiras

O aumento do volume de pedidos, clientes e informações processadas diariamente começa a expor um gargalo menos visível nas indústrias: a capacidade das equipes comerciais e de planejamento de acompanhar o ritmo da operação. Em muitas empresas, atividades como consulta de estoque, atualização de sistemas, conferência de pedidos, acompanhamento de carteira e consolidação de relatórios ainda dependem de abastecimento manual de dados e de controles paralelos em planilhas.

O problema tende a aparecer quando a demanda cresce mais rapidamente do que a estrutura responsável por esses fluxos. Mesmo sem limitações na produção ou na geração de novos negócios, a empresa pode enfrentar atrasos, filas operacionais e perda de agilidade porque os profissionais não conseguem processar, no mesmo ritmo, todas as informações necessárias para atender clientes e orientar decisões.

“Quando os processos continuam dependentes de consultas, atualizações e cruzamentos manuais, o desafio deixa de ser gerar demanda e passa a ser conseguir processá-la com velocidade e consistência”, explica Daniel Torres, CEO da Roboteasy, empresa especializada em hiperautomação empresarial e IA. “É exatamente aí que os agentes inteligentes deixam de ser diferencial e passam a ser infraestrutura.”

Isso ajuda a explicar por que a automação, antes concentrada principalmente em departamentos financeiros, fiscais e administrativos, começa a avançar sobre processos mais próximos da receita e do relacionamento com o cliente. Áreas comerciais, de planejamento e de atendimento passaram a lidar com volumes maiores de dados, sistemas desconectados e necessidade de resposta mais rápida, o que ampliou o potencial de automatização dessas rotinas.

A mudança já aparece nos indicadores da indústria brasileira. Segundo a Pintec Semestral 2024, do IBGE, 89,1% das empresas industriais com 100 ou mais empregados utilizavam ao menos uma tecnologia digital avançada. Entre aquelas que adotavam inteligência artificial, 87,9% aplicavam a tecnologia em funções administrativas, e 75,2% em atividades de comercialização.

Na mesma pesquisa do IBGE, 90,3% das indústrias usuárias de tecnologias digitais avançadas apontaram aumento de eficiência. Outros 89,5% registraram maior flexibilidade em processos administrativos, produtivos e organizacionais, enquanto 85,6% observaram melhora no relacionamento com clientes ou fornecedores, e 82,9% relataram maior eficácia no atendimento ao mercado.

Para Daniel Torres, os resultados mostram que a discussão sobre automação passou a envolver o próprio modelo de crescimento das companhias. “A automação permite que a empresa aumente o volume atendido sem precisar ampliar a estrutura na mesma proporção, além de trazer mais previsibilidade, padronização e qualidade para os dados usados na tomada de decisão”, afirma.

Rotinas simples se tornam gargalos em operações de alto volume

Nos fluxos comerciais e de planejamento, os gargalos nem sempre estão em atividades complexas: em muitos casos, eles surgem da repetição diária de tarefas como consultar estoques, conferir pedidos, atualizar cadastros, acompanhar carteiras e consolidar informações mantidas em sistemas diferentes. Individualmente, cada etapa pode consumir poucos minutos. Quando precisa ser executada centenas de vezes ao longo do dia, porém, passa a determinar a capacidade total da operação.

Outro problema é a dependência de planilhas e controles paralelos para conectar áreas que participam do mesmo fluxo. Informações geradas pelo comercial precisam alimentar o planejamento, enquanto dados de estoque, produção ou disponibilidade devem retornar às equipes de atendimento e vendas. Quando essa circulação ocorre manualmente, qualquer crescimento de volume tende a elevar também o número de intervenções necessárias.

“São atividades essenciais para o funcionamento da operação, mas que consomem muitas horas porque envolvem repetição, consulta e transferência de informações. Quanto maior o volume, maior é a dificuldade de manter velocidade e padronização apenas com execução manual”, afirma Daniel Torres, da Roboteasy.

Em uma indústria atendida pela Roboteasy, o aumento da demanda começou a pressionar uma operação responsável pelo abastecimento, pela consulta e pela atualização de informações usadas nas áreas comercial e de planejamento. A execução dependia de atividades manuais e acompanhamento contínuo, o que gerava filas e limitava o número de solicitações processadas diariamente.

Com a automação das etapas repetitivas, a operação passou a atender entre 500 e 700 clientes por dia, sem aumento equivalente do quadro responsável pelo fluxo. A capacidade operacional ficou entre cinco e sete vezes maior em relação ao modelo anterior; resultado mensurado a partir de indicadores como volume diário processado, número de clientes atendidos, tempo médio de execução e capacidade de absorção da demanda pela equipe. A automação também permitiu padronizar a execução e manter o processamento das informações com maior disponibilidade ao longo do dia. O projeto envolveu não apenas a automação das etapas, mas a integração entre sistemas, dados e equipes.

O caso ilustra um dos principais fatores que vêm impulsionando projetos desse tipo nas indústrias: à medida que pedidos, clientes e fontes de dados aumentam, a operação administrativa e comercial precisa ganhar escala para que o crescimento não seja convertido em mais complexidade interna.

Ganhos vão além da velocidade

Embora o aumento de produtividade costume ser o resultado mais visível, a automação também afeta a qualidade e a previsibilidade dos processos. Ao reduzir digitações, transferências manuais e controles paralelos, as empresas diminuem a possibilidade de erros e passam a trabalhar com informações mais consistentes e atualizadas.

A rastreabilidade é outro efeito relevante. As etapas executadas podem ser acompanhadas, registradas e medidas, o que facilita a identificação de falhas e gargalos. Para as lideranças, essa visibilidade permite avaliar volumes, tempos de processamento e exceções com maior precisão.

Nesse modelo, a automação não elimina a necessidade de pessoas nos processos comerciais e de planejamento: ela reduz a relação direta entre aumento do volume e expansão da estrutura, permitindo que a mesma equipe absorva uma operação maior sem perder controle, qualidade e capacidade de resposta.

A ampliação do uso de automação também não elimina a necessidade de revisar os processos antes da implementação. Quando uma rotina é pouco padronizada, depende de regras informais ou apresenta muitas exceções sem tratamento definido, a tecnologia pode apenas reproduzir falhas já existentes. Por isso, o mapeamento das etapas, a definição de responsabilidades e o estabelecimento de indicadores devem anteceder a automatização. Também é necessário determinar quais situações podem ser executadas de forma autônoma e quais precisam continuar sob análise das equipes.

“A automação não deve ser usada para acelerar desorganização”, alerta Daniel Torres, da Roboteasy. “Por isso, todo projeto que implementamos começa pelo mapeamento e pela estruturação do processo. A tecnologia vem depois. Uma boa recomendação é começar a automatizar por atividades que combinem alto volume, repetição e impacto direto no negócio. Muitas vezes, uma tarefa aparentemente pequena consome horas da equipe todos os dias e se transforma em um gargalo quando a operação cresce.”

A governança também se torna mais relevante à medida que aumenta o número de automações em funcionamento. Além de monitorar falhas e resultados, as empresas precisam acompanhar mudanças nos sistemas, nas regras de negócio e nas próprias rotinas, para evitar que os fluxos automatizados deixem de refletir a operação real.

Tecnologia passa a integrar a estratégia de crescimento

O avanço da automação sobre áreas comerciais, de planejamento e atendimento representa uma mudança na forma como as lideranças avaliam esse tipo de investimento. Antes associada principalmente à redução de custos e à eficiência de tarefas administrativas, a tecnologia passa a ser considerada parte da infraestrutura necessária para ganhar escala.

Nas indústrias, essa mudança ocorre porque o crescimento depende não apenas de capacidade produtiva ou geração de vendas, mas também da velocidade com que as informações circulam entre pedidos, estoques, planejamento, atendimento e execução. Quando esses fluxos não acompanham o aumento da demanda, tornam-se um limite para o negócio.

“À medida que a digitalização avança para funções próximas da receita e do relacionamento com o cliente, a automação deixa de ocupar uma posição apenas operacional. Ela passa a determinar, em parte, o ritmo com que as indústrias conseguem atender novas demandas, responder ao mercado e sustentar o crescimento”, conclui Daniel.