Florianópolis, 12 de julho de 2024

Flávio José Cardozo participa do Círculo de Leitura na UFSC

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Contista, cronista e tradutor, Flávio José Cardozo é o convidado da 44ª edição do Círculo de Leitura de Florianópolis, que será realizada às 17h, nesta quinta-feira, dia 25, no miniauditório Harry Laus da Biblioteca Universitária da UFSC. Ele falará de suas primeiras leituras, da passagem pelo seminário de Turvo, onde foi apresentado aos grandes clássicos da literatura, das lembranças da paisagem inóspita de Guatá, onde viveu a infância, de seus escritos e dos livros e autores prediletos, que revisita freqüentemente, na tentativa da “redescobrir” suas peculiaridades e o prazer que elas proporcionam.

A infância, a extração do carvão, a vida difícil nas minas e a Serra do Rio do Rastro estão presentes em vários livros do escritor. Num deles, “Guatá”, ele retrata o ambiente, os personagens, as figuras ímpares de sua terra, e o trem que levava de Lauro Müller para o mundo, até Tubarão, a “cidade grande”, e ainda o rádio Zenith que trazia as notícias do restante do planeta, e os faroestes exibidos no cineminha da vila. A serra foi descrita desta forma em uma entrevista: “muralha enorme, misteriosa, azulada, em cima da qual eu sabia que existiam povoados e cidades inatingíveis, campos e casas que no inverno, dizia-se, se cobriam de branco”.

Outra vertente importante na obra do escritor são os contos ambientados na Ilha de Santa Catarina, onde mora desde 1975. O livro de estréia, “Singradura”, investiga os tipos, os falares e o modo de vida do morador ilhéu. O mesmo aconteceu em “Zélica e outros”, que volta a explorar a paisagem física e humana da Ilha e personagens dos vilarejos interioranos. “Longínquas baleias” mescla contos dos livros anteriores e acrescenta novos textos. Também vieram vários volumes de crônicas (“Água do pote”, “Beco da lamparina”, “Tiroteio depois do filme”) e incursões pela literatura infantil.

Aos 71 anos, Flávio Cardozo está longe de abandonar a atividade literária. No momento, ele prepara o livro “Sopé”, com 22 textos que reúnem impressões da região de Guatá, Orleans, vale do rio Tubarão e da Serra do Rio do Rastro. A edição é da Unisul, vem ilustrada pelo pintor Tércio da Gama e deve ser lançada em Lauro Müller, em agosto deste ano. Além disso, ele e o escritor Jair Francisco Hamms estão preparando uma edição a quatro mãos de um volume de crônicas, nos moldes do que Cardozo fez com Silveira de Souza no livro “Trololó para flauta e cavaquinho”, lançada no início desta década.

BREVE ENTREVISTA

Como foram seus primeiros contatos com a leitura?
Flávio – Foi na escolinha primária de Guatá, perto de Lauro Müller, onde os livros ocupavam meia prateleira de um armário, que descobri o fascínio da palavra. Eram as histórias das 1001 Noites e de Ali Babá que nos transportavam para bem longe da vilazinha escondida no pé da serra. Depois vieram os volumes de uma coleção organizada pelo professor Henrique da Silva Fontes e adotada pelas escolas do Estado. E na farmácia do seu Lindomar, perto de casa, ganhávamos o almanaque do ano, também com leituras interessantes. Foi ali que descobri as aventuras de Jeca Tatu e de outros personagens de Monteiro Lobato.

Mais tarde, já no seminário, onde entrei aos 11 anos, aprendi muito com os 18 volumes da coleção Tesouro da Juventude, que reunia de tudo – literatura, história e ciência, sempre adaptadas para crianças e adolescentes. Lembro de ter sido marcado pela leitura de “Coração”, livro de Edmondo de Amicis escrito em forma de diário, contando a rotina de uma escola primária italiana logo após a reunificação.

Qual foi o papel do seminário na formação do leitor e escritor Flávio Cardozo?
Flávio – No período que passei entre os padres, a leitura teve grandes progressos. Fomos em mais de 20 garotos para o seminário, em Turvo, perto de Araranguá, o que era uma espécie de fuga dos limites e da pobreza de Guatá. Ali, tive contato com os romances da coleção Terramarear, organizada por Monteiro Lobato, e o privilégio de ter um bom professor de português que nos introduziu na leitura de poesias de boa qualidade.

Dali para frente, quais foram as leituras que mais o marcaram?
Flávio – Sempre fui um leitor dos clássicos, de “Dom Quixote”, de Shakespeare, de Camões, de Fernando Pessoa, aos quais volto sempre. No Brasil, nunca deixo de reler Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector.

Por conta de um trabalho feito pela Record, a sua editora, você tem feito muitas palestras em escolas. Como vê a relação das novas gerações com a leitura?
Flávio – É uma luta muito grande, mas vejo como fundamental o papel dos professores em aproximar os pequenos leitores da literatura. É comovente ver como eles se empenham neste sentido. Os mestres são os grandes aliados do escritor para despertar o interesse dos jovens pelos livros. Só assim há alguma chance de aumentar os índices de leitura junto a esse pessoal. Tenho conversado com crianças, com estudantes do ensino médio e com universitários, mas o que tem me proporcionado as maiores alegrias são os pequenos, pela emoção com que se envolvem com os livros.

O CÍRCULO

Criado pelo poeta Alcides Buss, o Círculo de Leitura é um projeto que permite ao convidado e aos presentes discutirem informalmente sobre os livros que estejam lendo, as leituras do passado e as influências de outros autores sobre o seu trabalho. Escritores e jornalistas como Salim Miguel, Oldemar Olsen Jr., Fábio Brüggemann, Inês Mafra, Mário Pereira, Maicon Tenfen, Cleber Teixeira, Dennis Radünz, Rubens da Cunha, Renato Tapado, Raimundo Caruso, Nei Duclós, Marco Vasques, Zahidé Muzart, João Carlos Mosimann e Mário Prata foram alguns dos participantes das etapas anteriores do projeto.

Contato com o escritor Flávio José Cardozo pode ser feito pelo telefone (48) 3235-1393.

Por Paulo Clóvis Schmitz / Jornalista na Agecom
Foto: Márcio H. Martins/FCC