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Com participantes de um a 78 anos, o espetáculo reúne mais de 400 músicos de sete estados do Brasil

Existe um momento em que quem está acostumado a ocupar o fundo do palco, marcando o ritmo de uma banda, passa a compartilhar a mesma melodia com centenas de outras pessoas. Baterias ocupam uma praça inteira, todas voltadas para a mesma direção, enquanto músicos de diferentes idades, histórias e estilos musicais tocam como se fossem um único instrumento. É essa a cena que a Orquestra de Baterias de Florianópolis volta a criar em sua 13ª edição.

Neste ano, o encontro reúne cerca de 400 bateristas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Ceará e Mato Grosso do Sul. Entre os inscritos, há uma participante de apenas um ano de idade e um músico de 78 anos. Ao todo, 120 pessoas estreiam em 2026, enquanto outras 260 retornam após já terem vivido a experiência em edições anteriores. Há, inclusive, quem nunca tenha faltado.

Mais do que os números, o que chama a atenção é a diversidade que faz a orquestra soar como ela soa. No mesmo palco estarão crianças e veteranos, músicos profissionais e iniciantes, bateristas do rock, do heavy metal, do gospel, do sertanejo, da música brasileira e do pop. Quase 30% dos participantes são mulheres, uma presença que cresce ano após ano em um instrumento historicamente associado ao público masculino.

Para Thales Stipp, baterista que participa da Orquestra há anos, é justamente essa mistura que faz o projeto continuar atraindo músicos de diferentes gerações e níveis de experiência. “O que sempre me fez voltar foi a vibe e o negócio de ser muito democrático. Vai da criancinha de 3, 4 anos até a senhora de 84”, conta. Para ele, a dimensão do evento também ultrapassa o palco e movimenta a cidade. “O impacto cultural é gigantesco. Traz turismo, traz as pessoas para Floripa, é muito legal.”

Para o idealizador e um dos regentes da Orquestra de Baterias de Florianópolis, Alexei Leão, essa mistura é justamente o que torna o projeto único. “O baterista normalmente toca sozinho dentro de uma banda. A orquestra cria esse momento de tocar junto com um amigo, com a esposa, com o marido, com os filhos. É uma grande confraternização”, afirma.

A ideia surgiu em 2013, quando Alexei foi convidado para criar um encontro de músicos durante a Maratona Cultural de Florianópolis. Em vez de reunir diferentes instrumentos, decidiu colocar a bateria no centro do espetáculo. A escolha parecia improvável e a proposta deu certo justamente por fazer o contrário do esperado. “Desde o início, a ideia era fazer algo diferente. A bateria como protagonista não é comum. Quando esse monte de baterias toca junto, cria uma massa sonora rara. As pessoas sempre se emocionam porque é uma experiência muito forte”, diz.

Ao longo de mais de uma década, a orquestra ultrapassou as fronteiras catarinenses. Hoje, recebe participantes de diferentes regiões do país e convidados internacionais, consolidando Florianópolis como referência para bateristas.

“É uma grande vitrine musical de Florianópolis para o Brasil e também para o exterior. Tenho participado de encontros em outros países e convidado músicos de fora para estarem aqui. A orquestra acabou criando essa conexão”, explica Alexei.

Se, por um lado, o número de participantes cresce, por outro, o espírito permanece o mesmo. O repertório é pensado para que músicos com diferentes níveis técnicos consigam tocar juntos. Embora a maioria dos bateristas tenha formação ligada ao rock, a seleção musical busca dialogar com públicos diversos e valorizar justamente o encontro entre diferentes estilos.

Neste ano, o público poderá ouvir versões para bateria de clássicos como Song 2, do Blur, Crazy Little Thing Called Love, do Queen, Symphony of Destruction, do Megadeth, Highway Star, do Deep Purple, e Heart-Shaped Box, do Nirvana, além de sucessos brasileiros como Tarde de Outubro, do CPM 22, e Admirável Chip Novo, da Pitty. A seleção ainda inclui hits mais recentes, como Uprising, do Muse, Try, da Pink, Levitating, da Dua Lipa, e How You Remind Me, do Nickelback, passando por What’s Up?, das 4 Non Blondes, Remedy, do The Black Crowes, e We’re Not Gonna Take It, do Twisted Sister. Um dos destaques fica por conta de Acordar, da banda catarinense Um Quarto, presença que reforça a valorização da música local em um repertório que mistura diferentes gerações e estilos em uma mesma apresentação.

A história de Thales ajuda a mostrar como essa mistura pode acompanhar um músico em diferentes momentos da carreira. Morador de Florianópolis por 12 anos, ele começou a tocar bateria ainda na adolescência e passou por bandas da cena independente da cidade, incluindo a Emo All Stars. Hoje, aos 25 anos, vive profissionalmente da música e integra a banda do cantor Di Ferrero. Em setembro, o baterista também sobe ao palco do Rock in Rio. Mesmo com a carreira ganhando novos caminhos, ele continua retornando à Orquestra, experiência que considera parte importante de sua trajetória musical.

É justamente essa convivência entre diferenças que Alexei aponta como a maior virtude da orquestra. “Tem quem toque pop, gospel, metal, sertanejo, música brasileira. Quando todo mundo toca junto, isso deixa de importar. Vira uma massa sonora unida. Acho que essa é uma das coisas mais bonitas da orquestra”. No fim, talvez seja esse o motivo de tanta gente voltar todos os anos. Em um instrumento acostumado à solidão, a Orquestra de Baterias de Florianópolis transformou o ato de tocar em um encontro coletivo e fez dessa reunião uma das imagens mais marcantes da música produzida em espaço público no Brasil.

A 13ª Orquestra de Baterias de Florianópolis é uma realização do Instituto Maratona Cultural com apoio cultural da Ibagy e da Hurbana – Cidade para as pessoas. Patrocínio Fundação Franklin Cascaes, Lei Municipal de Incentivo à Cultura, Prefeitura Municipal de Florianópolis. Incentivo ICRH e Tigre, por meio do Programa Estadual de Incentivo à Cultura – Lei nº 17.942 de 13 de maio de 2020.