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segunda-feira, outubro 18, 2021
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Uma visita ao admirável mundo ovo de Florianópolis

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Uma visita ao admirável mundo ovo de Florianópolis

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Na tarde do sábado passado, dia 12, enquanto milhares de pessoas se dirigiam ao Sapiens Parque, no Norte da Ilha, para curtir o segunda dia de Planeta Atlântida, a reportagem do DeOlhoNaIlha parou à altura de Santo Antônio de Lisboa, às margens da SC-401, sentido bairro-Centro, e foi conhecer um dos dois únicos locais que o “Guia Quatro Rodas 2013”, da Editora Abril, indica como indispensáveis (“não deixe de ir!”) para quem visita Florianópolis: o Museu O Mundo Ovo de Eli Heil – o outro é a Ilha do Campeche. Para ver fotos da visita, clique aqui.

Por R$ 10 nos fins de semana e R$ 6 de segunda a sexta-feira, sempre com horário agendado, o turista descobre ali, num casarão em meio à mata, a Florianópolis Ilha da Magia, a Florianópolis das entidades misteriosas, do colorido esfuziante, da inventividade de uma arte original e ligada intrinsecamente às mais caras tradições e lendas da cidade, com mil e uma criações – em barro, argila, cimento, fios, linhas, vidro, aquarelas, saltos de sapato, bisnagas de tinta espremidas, objetos de uso cotidiano – e mil e uma técnicas – pincéis, fogo, agulhas de várias espessuras, as mãos calejadas.

Quem recebe os visitantes é a própria criadora do mundo ovo, Eli Heil. Aos 83 anos, 50 de carreira comemorados no ano passado, a senhora baixinha reúne todos sob a copa da figueira do amplo jardim-museu e dá início à viagem pelo seu universo ímpar. Ela explica o despertar da sua atividade artística e conta histórias de antigamente com bom humor e inocência, mas também com a diligência de uma guia que quer mostrar o que de melhor há para a vista e para a sensibilidade. Ali, o mundo real não tem vez.

O grande pássaro e Adão e Eva

O tour começa com o pássaro gigante multicolorido que domina a parte da frente do terreno com a figueira. O bicho é imponente e uma referência à sua primeira criação artística, de 1962: um pássaro e seu ovo, sob os quais ela escreveu, premonitoriamente: “A rainha do galinheiro pôs um ovo gigante, vou fazer uma boa fritada”. À noite, de longe, os olhos verdes do bicho se acendem. A história da construção da ave imponente é curiosa e envolve a participação decisiva do pedreiro que fez a casa de Eli:

Em seguida, é a hora de avistar o “Cemitério de Adão e Eva”, cuja gênese dá para o visitante uma ideia de como a Florianópolis oficial e a Santa Catarina dos gabinetes tratam o admirável mundo ovo. Isso porque Adão e Eva, erguidos em 1987 pelo lado de fora mas junto ao portão de entrada do recém-inaugurado museu, hoje jazem num canto do terreno, cercados, desfigurados, deitados sobre britas e rodeados por pedras vermelhas que lembram o sangue esparramado das chacinas.

Estão ali desde 1996, quando, certo dia, funcionários do Governo do Estado adentraram o museu-casa de Eli para informá-la que, por conta da duplicação da rodovia, as estátuas teriam de ser retiradas do local. Ela não aceitou, protestou, em vão. “Foi uma brutalidade. Por conta dos mistérios da arte, durante a derrubada com as máquinas Eva chegou a virar para o outro lado, como se desse um último suspiro”, conta Eli. A obra da duplicação da SC não chegou nem perto do portão do museu.

Adiante!

Mas Eli Heil jamais se abateu pela falta de interesse ou apoio oficiais. O que lhe importa “é ter as pessoas aqui no museu, com os olhos vidrados na minha obra”. E ela segue adiante, chefiando as visitas – num único dia, na década de 80, ela atendeu 600 pessoas. Então a expedição pelo mundo ovo segue pelo entorno da casa que abriga a Sala de Exposição do museu. As paredes estão pintadas com o rosto, ou o focinho, ou o que seja, de criaturas extraordinárias, que acompanham com olhos e bocas bem abertas e corações à mostra a fila indiana, silenciosa, que segue atenta às explicações.

Nova parada: é hora de conhecer o anexo do museu: a torre da caixa da água, acessível por uma escada: lá dentro, o mais exótico e original presépio de que se tem notícia. Basta dizer que todas as figuras e todos os vultos da cena original, natalina e religiosa, estão presentes, mas transfigurados: os quadrúpedes têm tentáculos, bípedes se arrastam como répteis, as poucas formas humanas estão pintadas em volume na parede do cenário, como que a assombrar o fundo do oceano. Ninguém pode fotografar o presépio marinho.

425 obras tombadas

Molho de chaves na mão, Eli Heil conduz os visitantes à Sala de Exposição, onde fica a maioria das 425 obras tombadas pela artista, cujo destino só pode ser ficar para sempre no mundo ovo ou em exposições temporárias no mundo real. Lá dentro, centenas de telas, pequenas esculturas e objetos, ferragens, bordados, entre outros, pendurados ou encostados nas paredes, pendentes do teto e das vigas de sustentação do telhado.

Telas premiadas, como uma releitura de “A primeira missa no Brasil”, de Victor Meirelles, ou de grande destaque, como a grande Via-Crúcis em que está escrito: “Jesus caiu diversas vezes” ganham explicação e velhas histórias. Neste momento, o visitante pode adquirir o cartão-postal oficial do mundo ovo (pessoas já tiraram fotos do local e venderam por conta própria, o que explica o fato de que só é permitido fotografar o grande pássaro com Eli junto no quadro), e um livro que editou, “Vomitando Sentimentos” (Florianópolis: Fundação “O Mundo Ovo de Eli Heil”, 2000.), que custa R$ 60 com dedicatória simples e R$ 300 com dedicatória ilustrada.

Incansável

Eli heil recebe as visitas ao museu apenas com o auxílio dos filhos, João Pedro e Tereza. São eles que varrem o quintal, lustram os móveis, lavam o chão, preparam tudo, todo dia. Para registro: o único político que se interessou por sua arte, conta Eli, foi Esperidião Amin, que inclusive comprou algumas criações da artista. No fim do ano passado, uma mostra retrospectiva do seu trabalho foi montada na Fundação Cultural Badesc com obras de colecionadores. Depois, Eli soube que expor trabalhos inéditos – que são contados às centenas no mundo ovo – chegou a ser cogitado, mas os responsáveis pela cultura catarinense decidiram que “ficaria caro”, segundo relato de Eli.

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