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quarta-feira, maio 25, 2022
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Mais cultura no Mercado Público de Florianópolis

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Mais cultura no Mercado Público de Florianópolis

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Desde a inauguração até os dias de hoje, o Mercado Público de Florianópolis passou por mudanças. Com o descontrole do comércio, o local perdeu sua identidade, que pode ser resgatada com a revitalização e o processo de licitação do Mercado.

Um forte cheiro de peixes, bancas de frutas, verduras, condimentos e cerâmicas. Assim era o Mercado Público de Florianópolis quando foi inaugurada a atual estrutura, junto ao Largo da Alfândega, em 1928.

Segundo o diretor do Núcleo de Estados Açorianos (NEA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Joi Cletison Alves, o Mercado Público era um ponto de encontro para famílias que acabavam de chegar à região.

– As pessoas não apenas passavam por aqui, elas vinham aqui (no mercado) para se encontrar e para lembrar da cultura de sua terra. Aqui, elas encontravam determinados produtos dos açores, como alguns temperos e balaios, que eram usados para carregar praticamente tudo – explica Joi Cletison.

Na época, o mar chegava até bem perto da estrutura, e os barcos de pesca paravam praticamente dentro do mercado. Era onde as pessoas compravam peixe fresco, assim como hoje. Com a diferença de que hoje os boxes de peixarias são equipados com aparelhos de refrigeração e o cheiro, antes forte, tornou-se suportável.

O estudioso explica que, em virtude da colonização em Florianópolis, a base das características do mercado é portuguesa. Por outro lado, muitas culturas foram incorporadas, como a dos negros e índios:

– Os portugueses chegaram aqui e, apesar de trazerem suas crenças, mitos e lendas, tiveram de se adaptar à região. Um exemplo é a farinha de mandioca. Muitos aprenderam a fazer pirão, mas esse é um prato daqui, pois lá não existe essa farinha. Nos Açores também não há ostras, o que tem lá é um molusco bem parecido, chamado lapa.

O Mercado Público também tem a arquitetura aos moldes dos portugueses. A técnica da construção luso-brasileira é percebida nos formatos de portas e janelas, em arcos.

Claro que, no Brasil, a técnica teve algumas distinções. Como a madeira era abundante, os portugueses acabaram substituindo as pedrarias, utilizadas em acabamentos. Hoje, a arquitetura, as peixarias e uma ou outra banca de produtos típicos é o que o local ainda guarda em termos de cultura açoriana.

MERCADO PÚBLICO: Ontem / Hoje

Mesmo com a influência açoriana, poucos produtos encontrados no Mercado Público de Florianópolis, hoje, remetem à cultura da região. Com os anos, a Ala Sul ficou habitada por donos de peixarias, restaurantes e uma ou outra loja de artesanatos, enquanto na Ala Norte, o comércio de roupas e sapatos prevalece.

Hoje, quem precisa comprar artigos chineses sabe onde os encontrar, mas quem procura por cerâmicas, artigos de tecelagem e rendas de bilros, vai para casa de mãos abanando. Até mesmo o jeito típico de falar do florianopolitano, descendente de portugueses, não existe mais no mercado.

Ao percorrer o local com o historiador Joi Cletison Alves, o Diário Catarinense encontrou duas bancas com cestas e esteiras tipicamente açorianas. Outros vários artesanatos eram semelhantes aos fabricados nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Souvenirs são, em sua maioria, industrializados. Essa perda de identidade é, segundo Joi Cletison, devido à influência da globalização sobre o espaço, que começou em meados da década de 1970, quando a migração se tornou mais significativa a partir da abertura da BR-101.

– Atualmente, em todo o lugar do mundo as pessoas até se vestem parecido, mas o turista gosta de ver o que é da região, por isso é preciso preservar – afirma Joi Cletison.

MERCADO PÚBLICO: amanhã

Para mudar o que o mercado é hoje, segundo Joi Cletison, basta existir vontade política. Assim, a abertura de uma concorrência pública para ocupação dos boxes do Mercado Público poderia contribuir para o resgate da identidade cultural do local. É isso o que talvez faça a prefeitura.

O edital de licitação já está sendo elaborado e, se tudo der certo, deve ficar pronto até novembro deste ano. Por isso, uma comissão, formada por entidades e secretarias municipais, analisa o chamado mix, que determinará o que será feito para cada ala.

Até o dia 4 de outubro, a comissão deve entregar uma proposta de diversificação ao prefeito. O secretário Executivo de Serviços Públicos, Salomão Mattos Sobrinho, explica que ali estarão estipulados o percentual de segmentos que os 140 boxes devem obedecer para poder concorrer.

Esse levantamento vai levar em consideração um estudo, segundo Mattos, feito pelo instituto Mapa em 2005, que mostra que a população espera encontrar no Mercado de Florianópolis itens variados, semelhante aos de grandes capitais, como São Paulo.

Claro que, esse levantamento só será implantado no edital mediante a aprovação do prefeito, que pode fazer alterações. Depois de elaborado, o edital prevê audiências públicas para explicar as condições à comunidade. Os atuais donos de boxes também poderão participar da concorrência.

– Vamos sugerir o local e quantidade para comercializar cada coisa, para que nenhuma esteja predominando – informa Mattos.

Com isso, também se espera utilizar o vão central para promoção do lazer e da cultura. O secretário explica que o comércio de artesanato regional, por exemplo, tem isenção de impostos devido a uma lei estadual.

O secretário entende que, hoje, a ala Norte do Mercado se tornou um local de venda popular de sapatos mas, segundo ele, um local histórico não deve comercializar primordialmente produtos chineses. Por isso, para Mattos, é preciso pensar em uma área para relocar esses comerciantes. Visto desse modo, o resgate da identidade cultural do mercado público parece fácil. Resta saber se esse mix vai levar em consideração as características culturais da região e se a licitação vai mesmo sair do papel.

A Câmara de Vereadores da Capital promulgou uma lei que permite aos comerciantes instalados no local permanecerem por mais 15 anos sem a necessidade de concorrência. O documento inclui parágrafos que tinham sido vetados pelo prefeito Dário Berger e que dão margem ao prazo. O Ministério Público ajuizou uma ação de inconstitucionalidade contra a promulgação por entender que a lei concede um bem público sem licitação.

Curiosidades

• Os valores para a licitação, se houver, ainda não foram estipulados. Quem desejar concorrer vai precisar estar dentro das condições do mix, pagar um valor inicial e o aluguel mensal do box. O preço do aluguel será recalculado. Hoje, segundo Mattos, está em torno de R$ 60 por metro quadrado.

• Outro aspecto que deve ser alterado com a licitação dos boxes é o sistema de gestão do Mercado Público. Conforme o secretário, atualmente é a prefeitura que arca com limpeza e manutenção do local, mas o ideal é que ele funcione como um condomínio, com responsabilidade de todos.

• Paralelamente à elaboração do edital de licitação, existe um projeto de revitalização do mercado.

MERCADO PÚBLICO: Calçando há 37 anos

O homem de sorriso constante quase passa despercebido na imensidão do Mercado Público de Florianópolis, a menos que se pergunte onde fica a banca do português. José Sebastião Rodrigues, 63 anos, está há 37 anos instalado na Ala Norte do mercado.

Ele faz parte da linhagem de comerciantes mais antigos do local e é um dos poucos nascido em Portugal. O box 40 pertence à família há cerca de 60 anos. Foi do sogro e ficou para seu José quando ele, enfim, resolveu vir para o Brasil com a esposa e duas filhas.

O box nasceu e se mantém hoje com o comércio de sapatos. Antigamente, conta seu José, existiam somente quatro bancas do segmento. Hoje, praticamente toda a ala é formada por boxes de sapatos e roupas. Para o comerciante, a criação desse polo é positiva:

– Eu vendo determinadas marcas, outros, sapatos de outros fabricantes. Quem quer comprar, sabe que tem.

Nascido na província de Três Montes, José Rodrigues teve de se adaptar aos costumes locais. Ele conta que como não existe farinha de mandioca em Portugal, comeu pirão pela primeira vez quando já estava trabalhando no mercado.

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